JOYCE ALMEIDA
jornalista
Este artigo apresenta uma reflexão afetiva e crítica sobre o papel da educação informal através da música, do amor e da cultura popular na formação de identidade das pessoas. O artigo propõe uma visão sobre como experiências que são vividas com uma avó analfabeta, porém sensível à arte e à música, podem influenciar profundamente a trajetória educacional e profissional de um futuro professor, provando que o ensino vai muito além da sala de aula, mas que também acontece nas relações familiares, no cotidiano e nas melodias que atravessam as gerações. Palavras-chave: memória; sertão; educação informal; música; identidade.
INTRODUÇÃO | O sertão brasileiro é um território de resistências, afetos e saberes que, embora muitas vezes invisibilizados pela falta de apoio governamental e por suas estruturas tão formais de ensino, vão moldando vidas e construindo histórias. Este artigo propõe refletir sobre o impacto da educação não formal e do afeto familiar na formação de um educador. A partir de uma experiência que será abordada como a convivência com uma avó sem estudos, mas rica em vivências culturais e sensibilidade musical, que foi importante para a contribuição da formação de um professor de Língua Inglesa.
A avó lavadeira e o rio que ensinava
Dona Maria era lavadeira no rio São Francisco, mãe de seis filhos e mulher negra sertaneja, que enfrentou a fome para alimentar os seus. Ela não sabia ler nem escrever, mas sabia viver com sabedoria e transmitir valores essenciais. Quando uma filha, professora, precisava trabalhar, era Dona Maria quem assumia as tarefas de cuidado: alimentação, higiene, afeto e ensinamentos da vida, como observar o tempo, a rezar, a respeitar o próximo e, sobretudo, a escutar.
Música como herança afetiva
Nas tardes chuvosas, com o neto ainda criança, eles ouviam juntos as músicas que vinham do rádio e da televisão. Foi em uma dessas ocasiões que, durante um intervalo de novela, ela comentou sobre a banda Queen, cujo DVD promocional na época estava sendo anunciado. O neto, viu-se surpreso: como a avó que não sabia inglês (e sequer lia ou escrevia em português) podia admirar aquela música? Essa pergunta o acompanhou até hoje e tornou-se o centro deste texto. Foram juntos à feira do Ceasa comprar o DVD. Desde então, não conseguiam parar de escutá-lo e a sonoridade do inglês passou a fazer parte da vida do neto. Hoje, estudante do último período da graduação em Letras – Língua Inglesa, ele percebe o quanto aquele gesto singelo da avó, aparentemente simples, foi formativo. Não se tratava apenas de música, mas de uma abertura ao mundo, e à sensibilidade, ao gosto e ao aprendizado sem palavras.
A educação fora dos muros da escola
A história de dona Maria é semelhante a de muitas mulheres do sertão: analfabetas formais, mas mestras da vida. O que ensinou não foi currículo, mas o valor de sua escuta, da perseverança, do cuidado e da cultura. Ao reconhecer o valor desses saberes, joga-se por terra a lógica tradicional que desvaloriza a educação não formal e tem-se a certeza de que o afeto possui uma importância muito grande.
Hoje, muitos dos filhos e netos dessa geração de mulheres que não puderam estudar se tornaram professores, médicos, advogados, artistas. São frutos do seu esforço coletivo, da memória e do amor. A educação no sertão não é apenas sobrevivência, mas, também, é resistência, herança, e amor.
Considerações | Essa história também faz reconhecer a importância de uma educação que acolhe a diversidade dos saberes. Ao escutar Queen, com a avó, o neto aprendeu que a educação pode começar em casa, ser silenciosa, e ainda assim transformar muitas vidas. A jornada de uma avó sertaneja sem estudo e de um neto que se torna professor de língua inglesa é uma celebração da aprendizagem em sua forma mais profunda: sem letras, mas com melodia, aquela que nasce do amor, da música e da convivência.
Referências | FREIRE, Paulo. Pedagogia do oprimido. 60. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2021; KILPP, Sílvia. A musicalidade como linguagem. Revista Comunicação & Educação, São Paulo, n. 33, p. 15-23, 2007; TARDIF, Maurice. Saberes docentes e formação profissional. Petrópolis: Vozes, 2014.


