Especialistas em urbanismo sustentável e sensoriamento remoto com drones visitam campi Montes Claros e Pirapora; parceria financiada pela União Europeia pode abrir intercâmbio para alunos brasileiros
O sertão mineiro nunca esteve tão perto do Mar Báltico. Nessa quinta-feira (14 de maio), o Instituto Federal do Norte de Minas Gerais (IFNMG) deu mais um passo firme em direção à sua internacionalização ao receber, de braços abertos, duas docentes vindas da Lituânia, país do norte da Europa que faz fronteira com a Polônia e a Letônia. As professoras Giedrė Ivavičiūtė e Daionara Jankauskiene, ambas da universidade Klaipėdos valstybinė kolegija (KVK), desembarcaram na região com uma missão clara: estreitar laços acadêmicos, científicos e tecnológicos que vão muito além do intercâmbio de e-mails e artigos.
A recepção aconteceu na Reitoria do IFNMG, em Montes Claros, e teve ares de encontro entre velhas amigas — ainda que o conhecimento formal entre as instituições seja recente. Quem liderou as boas-vindas foi a reitora Joaquina Nobre, cercada por sua equipe da Coordenação de Relações Internacionais (Crinter) e outros gestores de peso. O clima era de otimismo e curiosidade. Afinal, o que duas professoras do outro lado do continente podem ensinar a uma instituição enraizada no semiárido mineiro? A resposta, segundo as próprias visitantes, é: muita coisa.
Durante a primeira reunião de trabalho, os debates giraram em torno de cooperação concreta. Não apenas discursos vazios ou protocolos de intenções. Foram discutidas a oferta de cursos on-line ministrados pelas docentes lituanas para estudantes brasileiros, disciplinas compartilhadas em tempo real (a chamada “mobilidade virtual”) e até possibilidades de dupla diplomação no futuro. Sim, o IFNMG quer que seus alunos tenham um pedacinho da Lituânia em seus currículos — e vice-versa.
Mas a agenda das professoras não se limitou às salas climatizadas da Reitoria. O roteiro incluiu visitas técnicas detalhadas aos campi Montes Claros e Pirapora, com ênfase nas estruturas acadêmicas dos cursos de engenharia e geotecnologias. Em cada laboratório, em cada conversa de corredor com docentes locais, as lituanas faziam anotações, tiravam fotos e já desenhavam mentalmente os primeiros esboços de projetos conjuntos.
O que cada uma traz na bagagem?
A professora Giedrė Ivavičiūtė é especialista em Urbanismo, Sustentabilidade e Planejamento Territorial. Seu foco de atuação são temas que interessam particularmente ao Norte de Minas: expansão urbana sustentável, planejamento espacial e gestão do uso do solo. Cidades como Montes Claros, Pirapora e tantas outras da região enfrentam desafios gigantescos de crescimento desordenado, falta de moradia adequada e conflitos fundiários. Giedrė pode contribuir com minicursos, oficinas e, mais importante, a articulação de projetos internacionais que tragam financiamento e metodologias inovadoras para modernizar a grade curricular das engenharias e da gestão territorial do IFNMG.
Já a professora Daionara Jankauskiene atua na área de Sensoriamento Remoto e Engenharia de Medidas. Seu currículo parece saído de um filme de ficção científica: ela trabalha com drones equipados com sensores térmicos, tecnologia LiDAR (que usa pulsos de laser para medir distâncias com precisão milimétrica e criar mapas 3D de terrenos) e modelagem tridimensional de superfícies. O que isso tem a ver com o Norte de Minas? Tudo. Da mapeamento de áreas de risco a jazidas minerais, do monitoramento de recursos hídricos ao planejamento agrícola de precisão, o conhecimento de Daionara pode capacitar estudantes e professores do IFNMG a gerar modelos digitais de superfície e terreno aplicados a problemas reais da região — como a gestão das águas do São Francisco ou o mapeamento de voçorocas e erosões.
A semente plantada na Lituânia
Nenhuma parceria surge do nada. A visita das professoras é fruto direto de uma mobilidade acadêmica ocorrida em abril de 2025, quando o professor Breno Alcântara Silva, do IFNMG-Campus Pirapora, participou da International Week promovida pela KVK, na Lituânia. Durante aquela semana intensa, Breno (que é engenheiro civil e coordenador do curso de Engenharia Civil) imergiu em atividades acadêmicas, visitas técnicas e oficinas voltadas a engenharia civil, geotecnologia e mapeamento 3D de terrenos.
O que ele viu por lá o transformou. “A vivência internacional proporcionou amadurecimento acadêmico e profissional, além da ampliação da visão sobre ensino, pesquisa e inovação tecnológica aplicadas à Engenharia Civil e áreas correlatas”, conta Breno, que agora atua como anfitrião das colegas lituanas em solo mineiro. “Tive contato com diferentes metodologias de ensino, formas de organização acadêmica e tecnologias utilizadas em universidades e centros de pesquisa europeus, especialmente nas áreas de geotecnologias, planejamento territorial, sustentabilidade e gestão de riscos.”
Erasmus+: o motor da cooperação
Tanto a ida de Breno à Lituânia quanto a vinda de Giedrė e Daionara ao Brasil foram financiadas pelo Erasmus+, o programa da União Europeia que é uma verdadeira usina de oportunidades. Criado para incentivar a cooperação e a mobilidade internacional nas áreas de educação, juventude e desporto, o Erasmus+ oferece bolsas de estudo, voluntariado e desenvolvimento profissional em escala global. É graças a ele que um professor do sertão mineiro pode conhecer a neve da Lituânia — e trazer de volta, na bagagem, um mundo de possibilidades para seus alunos.
E que possibilidades são essas, exatamente? O professor Breno resume em uma frase: “As expectativas são ótimas, principalmente em relação a um possível intercâmbio de nossos alunos. Também esperamos uma futura parceria de trabalho.” Ou seja: em breve, quem sabe, um estudante do IFNMG poderá estar cruzando a Europa para estudar sensoriamento remoto com drones em uma universidade lituana. E, por sua vez, alunos da KVK poderão descer no aeroporto de Montes Claros para estudar as peculiaridades do semiárido e do São Francisco.



