Núcleo no Norte de Minas conecta universidade, empresas e políticas públicas para acelerar a Indústria 4.0 e reduzir desigualdades regionais
O Norte de Minas Gerais acaba de ganhar um novo protagonista no cenário da inovação industrial. Na última terça-feira (19), a Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste (Sudene) lançou oficialmente, em Montes Claros, o Núcleo da Nova Indústria Brasil (N-NIB) – uma plataforma estratégica destinada a acelerar a transformação digital das empresas, fomentar a competitividade e criar as bases para um novo ciclo de crescimento sustentável na região. O evento, realizado em parceria com a Universidade Estadual de Montes Claros (Unimontes) e a Federação das Indústrias de Minas Gerais Regional Norte (FIEMG Norte), reuniu representantes do setor produtivo, da academia e de diversos níveis de governo, evidenciando a força da articulação institucional como motor do desenvolvimento.
A proposta do N-NIB não se limita a apoiar negócios isolados. Trata-se de um desdobramento de uma estratégia nacional já testada em outros estados da área de atuação da Sudene, que agora chega ao território mineiro com o objetivo de interiorizar o conceito de Indústria 4.0 – aquela baseada em automação, dados, internet das coisas, inteligência artificial e manufatura avançada. O coordenador do núcleo no Norte de Minas, Pablo Peron, apresentou um raio-x detalhado da região, que revela tanto potencialidades quanto desafios.
Segundo os dados levantados, Montes Claros concentra atualmente 16,7% das empresas classificadas como de Indústria 4.0 em toda a área mineira da Sudene. Além disso, o município possui um Produto Interno Bruto (PIB) per capita 62% superior à média regional, o que demonstra sua capacidade de atrair investimentos e liderar processos inovadores. No entanto, a análise também mostra um cenário de alta concentração: 33,6% das empresas tecnológicas estão restritas a apenas três cidades – Montes Claros, Governador Valadares e Teófilo Otoni. Setores como instalação e manutenção elétrica dominam a pauta, respondendo por 36% do total, enquanto áreas estratégicas como fabricação de componentes eletrônicos, comércio atacadista de suprimentos de informática e produção de periféricos ainda despontam como nichos pouco explorados.
“O Norte de Minas não pode ser visto apenas por suas carências. Temos cultura, biodiversidade, recursos minerais e um povo empreendedor. Essa região está sendo observada pelo Brasil e pelo mundo como um território de oportunidades”, afirmou durante o lançamento o vice-reitor da Unimontes, Dalton Caldeira Rocha. A fala encontra eco nos números: dos 249 municípios que compõem a área da Sudene no Norte mineiro, 91 apresentam baixíssima densidade de empresas tecnológicas – o que representa um potencial de expansão de até três vezes, caso políticas públicas e investimentos privados sejam direcionados adequadamente.
Para o diretor de Promoção do Desenvolvimento Sustentável da Sudene, José Farias, o lançamento do N-NIB vai muito além de um evento simbólico. “Trata-se de um passo estruturante para o fortalecimento da base produtiva regional, com foco em inovação, competitividade e inclusão produtiva. A Sudene tem trabalhado para integrar instrumentos de financiamento, conhecimento técnico e articulação institucional, de modo a criar um ambiente mais favorável ao investimento e ao desenvolvimento sustentável”, comentou. Farias também anunciou que a autarquia já instituiu um grupo de trabalho específico para monitorar os impactos da Reforma Tributária e da recente Lei Complementar 224/2025 sobre os benefícios fiscais concedidos na região – tema que gerou preocupações entre os empresários presentes.
O presidente da FIEMG Regional Norte, Adauto Marques Batista, fez um alerta contundente. Ele lembrou que Montes Claros já viveu um passado de desindustrialização e que é necessário evitar um retrocesso. “Nós corremos o risco de Montes Claros se tornar novamente um cemitério de indústrias – algo que outrora aconteceu e que nós, junto com a Unimontes e várias mãos, transformamos e mudamos. A Lei 224 reduz benefícios tributários de forma linear em 10%, e isso pode afetar drasticamente a competitividade local. Precisamos reagir com planejamento, não com lamentação”, disse. Vale lembrar que, pela legislação vigente (Lei 14.753/2023), a Sudene só pode conceder incentivos fiscais até dezembro de 2028 – o que adiciona um elemento de urgência às discussões.
O evento contou ainda com a presença de outras lideranças importantes: Hícaro Lima Maciel, superintendente de Inovação Tecnológica da Secretaria de Estado de Desenvolvimento Econômico (SEDE); Anna Beatriz Muylaert, representando o Sindicato das Indústrias Químicas e Farmacêutica (QUIFARMO); Jairo Pordenciano Cézar Filho, do Sindicato das Indústrias Metalúrgica e Mecânica; Wesley Márcio Gonçalves Maciel, superintendente regional do Banco do Nordeste; Ana Cristina Rodrigues Lacerda, pró-reitora de Pesquisa e Pós-Graduação da Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri (UFVJM); e Gustavo Henrique Silva de Souza, diretor de Pesquisa, Pós-Graduação e Inovação do Instituto Federal do Norte de Minas Gerais (IFNMG).



