Adelaide Valle Pires
Autora
Na turma tem mãe e filha.
É bonito ver esse cuidado atravessando gerações — um gesto que começa de um lado da vida e segue caminhando para o outro.
Hoje, enquanto fazia exercício em um aparelho que me lembrou um antigo equipamento que minha mãe tinha em casa, veio a memória.
Minha mãe partiu muito cedo, e eu não tive a oportunidade de viver esse cuidado entre gerações como vejo hoje no Pilates.
Mas curiosamente foi essa lembrança que puxou um fio antigo do novelo.
Na volta para casa continuei a conversa com o Sr. PP, colega de Pilates e de profissão. Falávamos justamente disso: cuidar.
E alguém perguntou, quase sem perguntar:
— Mas por que começar a cuidar só depois?
Foi aí que o novelo das lembranças se desenrolou um pouco mais.
Voltei lá atrás, quando minha cunhada me levou para conhecer seu Juca.
Um senhor já de idade, mas com uma vitalidade que parecia ter combinado com o tempo de não envelhecer.
Foi meu primeiro personal.
A turma se chamava as Juquetes.
Nome curioso, ambiente leve, exercícios sérios.
Pensando agora, percebi uma coisa: até comecei cedo.
O problema nunca foi começar.
O problema sempre foi a descontinuidade.
E talvez o pulo do gato esteja justamente aí.
Porque manter algo na vida — seja exercício, leitura ou alimentação — não depende só da paixão inicial.
Depende de percorrer os diferentes tipos de amor que existem pelo caminho.
Tem o Eros, a paixão do começo.
Tem o Philia, quando a prática vira amizade.
Tem o Ludus, quando a gente aprende a brincar com o processo.
Tem o Pragma, o comprometimento que sustenta o hábito.
Tem o Agapé, quando cuidar de si também vira forma de cuidar da vida.
E, claro, tem a Philautia — o amor-próprio.
Não aquele que escorrega para o narcisismo,
mas aquele que lembra a gente de tomar, todos os dias, uma pequena dose de cuidado consigo.
Talvez seja isso.
No fundo, cuidar da vida é aprender a tomar uma dose diária de amor.


