Adelaide Valle Pires
Psicóloga
Estava aqui pensando em algumas cenas da vida moderna.
Hoje, é possível chegar a uma casa já pronta, colocar ali os nossos objetos pessoais e, algum tempo depois, sair quase do mesmo jeito que chegamos. É prático, confortável, funcional.
Mas fiquei pensando: onde fica o vínculo?
Uma casa é mais do que o lugar onde habitamos. Ela também pode ser uma extensão de quem somos. O habitante transforma o habitat, e o habitat, de algum modo, revela o habitante.
Há casas que contam histórias antes mesmo de conhecermos seus moradores. Uma planta escolhida com cuidado, uma fotografia na parede, um móvel antigo que atravessou gerações, um objeto que ganhou uma nova função. Pequenas coisas que, juntas, vão deixando marcas de quem vive ali.
E foi meu neto quem me deu uma dessas respostas sem saber que estava dando.
Ao falar de uma tarefa sobre reciclagem, ele foi buscar exemplos na minha casa: as plantas, uma planta que coloquei dentro de um filtro de barro velho, a flor na descarga do banheiro…
Ele não disse: “Vovó, você é criativa.”
Mas mostrou que percebe isso no ambiente.
E entendi que ele não estava apenas procurando objetos para fazer sua tarefa. Aquele espaço lhe dava ideias. Era como se a casa também participasse da criação.
Não porque eu fosse fazer a tarefa por ele, mas porque ali havia elementos que despertavam possibilidades.
Isso me fez pensar no quanto os lugares que habitamos também nos habitam.
Quando colocamos uma planta onde antes havia outra coisa, quando damos um novo uso a um objeto, quando escolhemos uma cor, uma fotografia ou um pequeno detalhe para compor um ambiente, estamos dizendo alguma coisa sobre nós.
Não precisamos explicar.
O espaço fala.
E talvez seja assim que deixamos nossas marcas no mundo: não apenas pelo que dizemos, mas pelos espaços que criamos, pelos objetos que escolhemos e pelos pequenos cuidados que incorporamos à vida.
Uma casa pode ser apenas um endereço.
Mas também pode ser memória, criatividade, afeto, identidade e encontro.
Porque pensamento pode nos encaixar em uma categoria.
Mas sentimento é movimento. É ação. É emoção.
É aquilo que, sem precisar de explicação, revela um pouco de quem somos.
E, no fim, talvez a pergunta não seja apenas onde moramos.
Mas o que de nós passa a morar nos lugares que escolhemos habitar.


