Filme “Cavalhadas” resgatou tradição cultural de Montes Claros e estreou no cinema com exibição marcante - Rede Gazeta de Comunicação

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Filme “Cavalhadas” resgatou tradição cultural de Montes Claros e estreou no cinema com exibição marcante

Documentário com cenas ficcionais narrou o renascimento da celebração após 66 anos e teve estreia no dia 30 de julho, no Ibicinemas

Montes Claros reviveu uma de suas mais simbólicas manifestações culturais com a estreia do filme “Cavalhadas”, lançada no último dia 30 de julho, no Ibicinemas do Shopping Ibituruna. A produção cinematográfica resgatou, com emoção e riqueza histórica, a tradicional cavalhada, evento que havia sido encenado pela última vez há mais de seis décadas na cidade.

Com direção do fotógrafo e historiador Neto Macedo e produção executiva de Fabíola Versiani (Fulô Comunicação e Cultura) e Carlos Soyer (Soyer Produções), o documentário foi viabilizado por meio de recursos da Lei Paulo Gustavo, com apoio da Secretaria Municipal de Cultura e Turismo de Montes Claros. A obra teve como principal produtor Murilo Maciel, filho de Nivaldo Maciel — figura histórica da cavalhada —, e contou com a colaboração de outros membros da família. A exibição contou com a presença do prefeito Guilherme Guimarães, da secretária municipal de Cultura, Júnia Rebello, além de familiares de Nivaldo Maciel, que prestigiaram o momento com emoção e orgulho.

Tradição reinventada

O filme homenageou o seresteiro e produtor rural Nivaldo Maciel (1920–2009), que se apresentou como Rei Mouro na cavalhada da Festa do Centenário de Montes Claros, em 3 de julho de 1957. A produção alternou trechos documentais e cenas ficcionais para contar a história da retomada da tradição, liderada pelos filhos e netos de Nivaldo. Em uma das cenas mais emocionantes, Murilo Maciel, interpretando a si mesmo, ensinava à neta, Alice Maciel, o significado da cavalhada e a importância de mantê-la viva.

A narrativa do filme se dividiu entre o reencontro familiar com a cultura popular e os depoimentos de historiadores, pesquisadores, artistas e moradores da cidade que guardavam lembranças da festa do centenário.

Participação da Unimontes

O projeto de resgate histórico contou com a contribuição direta de pesquisadores do Departamento de História da Universidade Estadual de Montes Claros (Unimontes). Os professores Marta Verônica Vasconcelos Leite, Laurindo Mékie Pereira, Márcia Pereira da Silva e Rejane Meireles Amaral integraram a equipe acadêmica responsável pelo levantamento e contextualização histórica da cavalhada, embasando a produção do filme com rigor científico e sensibilidade cultural.

Murilo Maciel destacou a importância da universidade nesse processo: “Na retomada da cavalhada, nós procuramos a Unimontes para resgatar a tradição com base na pesquisa histórica e cultural. Reviver a festa é também chamar de volta aqueles que a fizeram eterna”.

Legado de Hermes de Paula

A base histórica do filme também foi sustentada pela obra do médico, historiador e folclorista Hermes de Paula (1909–1983), que organizou a Festa do Centenário de 1957 e idealizou a Cavalhada do Centenário. Ele registrou todo o evento no livro “Montes Claros: sua história, sua gente, seus costumes”, publicação que foi reeditada pela Editora Unimontes e serviu de fonte para os roteiristas do documentário, como Rita Maciel e Thetê Rocha.

O livro trazia detalhes da encenação da cavalhada, incluindo falas, figurinos e estrutura cênica, o que permitiu aos realizadores reconstruir fielmente o espetáculo, inclusive nas novas apresentações realizadas nos últimos anos como parte do processo de gravação.

A cavalhada: tradição de raízes portuguesas

De origem europeia, a cavalhada é uma manifestação popular que simula o embate entre mouros e cristãos durante a Idade Média. No espetáculo, dois grupos montados — o exército cristão, representado pelas vestes azul-turquesa, e o exército mouro, de roupas vermelhas — encenam uma disputa pela princesa cristã. O desfecho ocorre com a conversão simbólica do Rei Mouro ao cristianismo, permitindo sua aceitação como genro pelo Rei Cristão.

Um filme para a memória coletiva

Com aproximadamente 60 minutos de duração, “Cavalhadas” encantou o público presente na estreia e emocionou tanto os descendentes de Nivaldo Maciel quanto os que vivenciaram ou ouviram falar da tradicional festa. A produção não apenas celebrou um capítulo importante da história montes-clarense, mas também reacendeu o debate sobre a valorização das culturas locais e a necessidade de políticas públicas permanentes de fomento à memória e às artes.

O filme, além de seu valor artístico, tornou-se um registro indispensável da identidade cultural de Montes Claros — uma ponte entre passado, presente e futuro, construída com afeto, pesquisa e um profundo compromisso com a história viva da cidade.