Tecnologias apresentadas pela Yara apontam redução de até 90% na pegada de carbono durante a fabricação dos insumos. Experiências em lavouras de batata e café mostram resultados que reforçam o desafio de conciliar produção de alimentos, sustentabilidade e viabilidade econômica
A busca por uma agricultura mais sustentável está ampliando o foco sobre uma etapa que antecede o plantio: a fabricação dos fertilizantes. Responsáveis por fornecer nutrientes essenciais ao desenvolvimento das culturas, esses insumos têm papel importante na produção mundial de alimentos, mas também estão associados às emissões de gases de efeito estufa. Diante desse cenário, fabricantes investem em tecnologias capazes de reduzir a intensidade de carbono sem comprometer a eficiência nutricional e o rendimento das lavouras.
Uma dessas iniciativas foi apresentada pela Yara Brasil durante o 6º Encontro Impactos Positivos, realizado em 24 de setembro, na FIAP, em São Paulo. Segundo dados divulgados pela companhia, fertilizantes produzidos com processos de menor emissão podem apresentar pegada de carbono até 90% inferior à de referências convencionais, mantendo a qualidade e a eficiência agronômica dos produtos.
Os resultados apresentados incluem experiências em lavouras de batata e café. Em uma área de 138 hectares cultivada com batata, um programa nutricional completo registrou redução de 28% na pegada de carbono e aumento de 9,8% na produtividade. No café, projetos desenvolvidos em mais de 300 hectares de arábica e 120 hectares de canephora apontaram redução de 40% nas emissões associadas, conforme os dados apresentados pela empresa. Em um caso específico de cultivo de canephora na Bahia, o índice de redução chegou a 41%.
Os números são atribuídos à apresentação da Yara e não significam que os mesmos resultados possam ser reproduzidos automaticamente em todas as propriedades. Condições climáticas, características do solo, manejo, disponibilidade de água e produtividade influenciam o desempenho das tecnologias em cada região.
O principal desafio para a agricultura é diminuir a pegada de carbono sem prejudicar a capacidade de produção. A redução das emissões precisa caminhar junto com o rendimento por hectare, a qualidade dos alimentos e a sustentabilidade financeira da atividade rural.
A fabricação de fertilizantes nitrogenados exige processos industriais que podem apresentar diferentes níveis de emissão de gases de efeito estufa. Uma das estratégias para reduzir esse impacto é modificar as fontes de energia e os processos empregados na produção, diminuindo a quantidade de carbono associada a cada unidade de nutriente fabricada.
Durante o encontro, Filippo Scelza, gerente de Assuntos Institucionais da Yara no Brasil, apresentou o portfólio Yara Climate Choice, formado por fertilizantes desenvolvidos com menor intensidade de carbono. Segundo a empresa, a redução pode chegar a 90%, dependendo do produto e da referência utilizada na comparação.
A companhia também apresentou diferenças entre as emissões associadas à fabricação de fertilizantes em diferentes regiões do mundo. Os dados divulgados apontam valores de 10,4 quilos de dióxido de carbono equivalente por quilo de nitrogênio para a China, 7,2 para a Rússia e 3,2 para a Europa. A Yara afirma que seus fertilizantes atuais podem representar redução de até 60% em relação a referências de maior intensidade de carbono consideradas na análise.
Esses números dependem das metodologias, dos limites de cálculo e das referências adotadas. Por isso, comparações ambientais exigem critérios consistentes para que produtores e compradores possam avaliar os resultados com segurança.
A importância dos fertilizantes vai além da indústria química. Segundo informações apresentadas pela Yara, mais de 50% dos alimentos consumidos atualmente são produzidos com o uso de fertilizantes minerais. A empresa também citou uma estimativa histórica segundo a qual esses insumos teriam contribuído para salvar 2,7 bilhões de vidas ao ampliar a capacidade de produção de alimentos.
A relação entre fertilizantes e produtividade agrícola começou a ganhar escala no início do século 20. Em 1905, na cidade norueguesa de Notodden, Sam Eyde e Kristian Birkeland desenvolveram um processo para extrair nitrogênio da atmosfera utilizando energia hidrelétrica. A tecnologia marcou uma etapa importante no desenvolvimento da produção industrial de fertilizantes nitrogenados.
Mais de um século depois, o desafio tecnológico passou a incluir não apenas a disponibilidade de nutrientes, mas também a redução das emissões geradas durante sua fabricação e utilização.
A pegada de carbono de um sistema agrícola não depende exclusivamente do fertilizante adquirido. O manejo dos nutrientes, a quantidade aplicada, as características do solo, as condições climáticas e o rendimento da colheita também interferem no balanço ambiental. Por isso, soluções de menor emissão precisam ser avaliadas dentro de um conjunto de práticas agronômicas.
A estratégia apresentada pela Yara combina fertilizantes de menor emissão com orientação agronômica, análise de solo, ferramentas digitais e programas de nutrição das plantas. A companhia informou manter mais de 150 pesquisas em andamento voltadas ao desenvolvimento da agricultura brasileira.
O portfólio de soluções citado inclui fertirrigação, aplicações foliares e bioinsumos. A empresa também destaca a eficiência no uso do nitrogênio, conhecida pela sigla em inglês NUE, como um dos fatores que podem contribuir para melhorar o aproveitamento dos nutrientes pelas plantas e reduzir perdas.
No caso da batata, a associação entre a redução de 28% na pegada de carbono e o aumento de 9,8% na produtividade ilustra a importância de considerar os dois indicadores simultaneamente. Entretanto, como o resultado foi obtido com um programa nutricional completo, não é possível atribuí-lo exclusivamente ao uso de um fertilizante específico.
Para os produtores, a adoção dessas tecnologias dependerá de fatores como preço, disponibilidade, retorno econômico e adaptação às condições locais. A redução das emissões pode representar um diferencial nas cadeias de fornecimento que buscam diminuir o impacto ambiental de seus produtos, mas a viabilidade precisa ser demonstrada em cada sistema de produção.
As alterações nos regimes de chuva e seca acrescentam dificuldades ao planejamento agrícola. Durante a apresentação, Scelza mencionou mudanças nos períodos de precipitação e estiagem entre os desafios enfrentados pelos produtores.
A agricultura, ao mesmo tempo que sofre os efeitos das mudanças climáticas, também participa das emissões globais. Entre as fontes relacionadas ao setor estão mudanças no uso da terra, pecuária, cultivo de arroz, resíduos orgânicos e produção e aplicação de fertilizantes minerais. O material apresentado pela empresa utilizou dados da FAOSTAT de 2020 e cálculos baseados em informações da indústria.
Nesse contexto, reduzir a intensidade de carbono dos insumos representa uma das frentes possíveis, mas não substitui outras medidas, como o manejo adequado do solo, a eficiência no uso da água, a redução de desperdícios e a adoção de práticas agrícolas adaptadas às condições climáticas.
Na avaliação apresentada por Scelza, a expansão de tecnologias de menor emissão depende da articulação entre empresas, governos e universidades. Políticas públicas, previsibilidade regulatória e incentivos podem estimular investimentos, enquanto a pesquisa científica contribui para desenvolver soluções e formar profissionais preparados para aplicá-las no campo.
A inteligência artificial também foi mencionada como ferramenta de apoio à inovação. O tema integrou a programação da sexta edição do Encontro Impactos Positivos, cujo mote foi “Inteligência Artificial. Inteligência humana. Impacto coletivo.” O evento, criado por Gisele Abrahão, fundadora e CEO da plataforma Impactos Positivos, reuniu empreendedores e organizações ligados a negócios de impacto.
Durante a programação, também foi realizada a sexta edição do Prêmio Impactos Positivos. Aventura de Construir venceu na categoria Dinamizador; Pesqueiro Sustentável, em Ideação; TrackGains, em Operação; e Parque Ecológico Rio Formoso, em Tração/Escala.
O avanço dos fertilizantes de menor emissão acrescenta uma nova dimensão à avaliação da produção agrícola. Além de medir quanto uma lavoura produz por hectare, cresce a necessidade de compreender o impacto ambiental associado a essa produção.
O desafio será ampliar as tecnologias, verificar seus resultados em diferentes culturas e regiões e garantir que a redução das emissões seja acompanhada de produtividade e retorno econômico. A transição para uma agricultura de menor carbono dependerá não apenas da inovação industrial, mas também da capacidade de transformar resultados pontuais em soluções acessíveis, verificáveis e aplicáveis em escala.


