O período de férias escolares, marcado por mais tempo livre e maior permanência das crianças em casa ou em áreas externas, exige atenção redobrada de pais e responsáveis para prevenir acidentes. Queimaduras, quedas, afogamentos e intoxicações estão entre as principais causas de atendimentos de urgência envolvendo o público infantil nesta época do ano, quando a rotina muda e a supervisão, muitas vezes, acaba sendo flexibilizada.
Em Minas Gerais, hospitais da rede estadual registram aumento significativo na procura por atendimentos pediátricos durante o recesso escolar. Situações consideradas simples ou corriqueiras podem se transformar rapidamente em ocorrências graves, sobretudo quando há momentos de distração no ambiente doméstico.
Um exemplo é o caso do pequeno Rayan, de 2 anos e 11 meses, que sofreu queimaduras após puxar um recipiente com água quente enquanto a mãe preparava o café. “Foi tudo muito rápido. Um minuto de descuido foi suficiente para que ele entrasse na cozinha e puxasse a alça do caneco”, relata a mãe, Agnes Alves. O menino foi socorrido e atendido no Hospital João XXIII, em Belo Horizonte, referência em casos de trauma e queimaduras.
O hospital integra a rede da Fundação Hospitalar do Estado de Minas Gerais (Fhemig), vinculada à Secretaria de Estado de Saúde (SES-MG). Mantida pelo Governo de Minas, a fundação reúne unidades de alta complexidade e é reconhecida nacionalmente pela excelência no atendimento a urgências, desempenhando papel estratégico na assistência à população mineira.
Segundo a coordenadora do Centro de Tratamento de Queimados do Hospital João XXIII, Kelly Araújo, a escaldadura — queimadura causada por líquidos quentes — é a principal causa de queimaduras em crianças pequenas. De acordo com a especialista, mais de 90% desses acidentes poderiam ser evitados com medidas simples de prevenção dentro de casa.
“O ideal é utilizar sempre as bocas de trás do fogão, manter os cabos das panelas voltados para dentro e evitar toalhas de mesa, que podem ser puxadas pelas crianças. Pequenas mudanças de hábito fazem grande diferença”, orienta.
No caso de Rayan, a água quente atingiu o braço, parte do tórax e das costas, provocando queimaduras de segundo grau. O Hospital João XXIII realiza, em média, cerca de 2 mil atendimentos por ano relacionados a queimaduras e traumas complexos, sendo referência em Minas Gerais para esse tipo de ocorrência.
Além dos líquidos quentes, outro risco frequente dentro das residências são as queimaduras elétricas. Tomadas desprotegidas, fios expostos e extensões ao alcance das crianças representam perigo constante. Especialistas recomendam o uso de protetores de tomada, organização da fiação e restrição do acesso a áreas de maior risco, além de vigilância contínua, mesmo quando dispositivos de segurança estão instalados.
Atenção também fora de casa
Durante o recesso escolar, os riscos não se limitam ao ambiente doméstico. Crianças maiores, especialmente na faixa etária entre 6 e 13 anos, costumam ganhar mais autonomia para brincar na rua, andar de bicicleta ou frequentar espaços como praças, clubes e áreas naturais, o que exige atenção ainda maior dos responsáveis.
O cirurgião geral e do trauma do Hospital João XXIII, Rômulo Souki, alerta que a redução da supervisão é um fator decisivo para a ocorrência de acidentes nesse período. “É nessa fase que acontecem quedas de altura, atropelamentos e afogamentos, especialmente em piscinas, rios e represas”, explica.
Segundo o especialista, brincadeiras ao ar livre devem contar sempre com a supervisão de um adulto, ocorrer longe de vias movimentadas e incluir o uso de equipamentos de segurança, como capacetes, joelheiras e cotoveleiras, em atividades como bicicleta, skate e patins. Ele também chama atenção para o risco de traumatismos cranianos.
“A cabeça da criança é proporcionalmente maior do que a do adulto, o que aumenta a gravidade das quedas. Às vezes não há fratura aparente, mas pode existir uma lesão interna grave, que só se manifesta com o passar do tempo”, alerta Souki.
Prevenção é a principal aliada
As crianças também são maioria nos casos de intoxicação acidental com produtos de uso domiciliar. Embalagens coloridas e chamativas despertam a curiosidade e facilitam o acesso a substâncias perigosas. Por isso, a SES-MG reforça que a prevenção é a principal aliada para garantir férias mais seguras.
Produtos de limpeza, medicamentos e substâncias químicas devem ser armazenados em locais altos, trancados e fora do alcance dos pequenos. A mesma atenção deve ser dada a objetos pequenos, como pilhas, baterias, tampas de caneta e peças de brinquedos, que podem ser engolidos e causar sufocamento ou outras complicações graves.
No caso dos brinquedos, é fundamental respeitar as recomendações dos fabricantes quanto à faixa etária indicada, garantindo que o item seja adequado ao desenvolvimento da criança. Outra medida importante para tornar o ambiente doméstico mais seguro é a instalação de telas de proteção em janelas, sacadas e áreas próximas a escadas.
O que fazer em caso de acidente
Em situações de contato com produtos de limpeza, caso sejam percebidos sinais como irritação, vermelhidão, coceira ou queimaduras, a orientação é lavar imediatamente a área afetada com água corrente em abundância e entrar em contato com o fabricante do produto para obter instruções específicas.
Em casos de queimaduras, recomenda-se colocar o local atingido sob água corrente em temperatura ambiente e manter a criança acordada até o atendimento médico. Já em situações de intoxicação por medicamentos ou produtos químicos, a criança deve ser levada o mais rápido possível a uma unidade de saúde, sem oferecer alimentos, líquidos ou induzir o vômito.
Em todas as ocorrências de maior gravidade, o Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) pode ser acionado pelo telefone 192. A orientação dos profissionais é clara: prevenir ainda é a forma mais eficaz de garantir que as férias sejam um período de descanso, diversão e segurança para as crianças e tranquilidade para as famílias.


