Ex-jogador compara situação do atacante do Atlético à de Cristiano Ronaldo e provoca debate sobre o papel das estrelas veteranas no futebol moderno
O desempenho recente do atacante Hulk, principal nome do Atlético Mineiro nos últimos anos, voltou a ser tema de discussão no programa SporTV Debate, exibido nesta quinta-feira (9/10). O motivo foi a decisão do técnico Jorge Sampaoli de manter o ídolo alvinegro no banco de reservas na vitória do Galo por 3 a 1 sobre o Sport, na noite de quarta-feira (8/10), na Arena MRV, em Belo Horizonte.
Entre os comentaristas, quem mais se destacou foi o ex-volante e atual analista esportivo Felipe Melo, que não poupou críticas à decisão do treinador argentino. Para ele, Hulk, mesmo em fase de baixa, deve ser mantido em campo por tudo o que representa técnica e emocionalmente para o clube e a torcida.
“Eu jamais tiraria o Hulk do time, para ser bem sincero. Mesmo em uma fase sem gols, ele é muito importante. Uma hora ou outra ele vai balançar as redes e abrir a porteira novamente. É um jogador decisivo, de personalidade forte, que muda o comportamento do time dentro de campo”, afirmou Felipe Melo, em tom de defesa ao atacante atleticano.
O comentário do ex-jogador reacendeu um debate que divide opiniões entre os torcedores e os próprios analistas: o peso da hierarquia e da liderança no futebol atual. Enquanto alguns defendem a renovação do elenco e a necessidade de descanso para atletas veteranos, outros argumentam que jogadores experientes, mesmo em declínio físico, são fundamentais pela influência psicológica e pela capacidade de decisão em momentos críticos.
Roger Flores: “Hulk não é um super-herói”
O também comentarista Roger Flores, ex-jogador do Cruzeiro, apresentou uma visão mais equilibrada sobre a situação do atacante. Ele reconheceu a importância de Hulk na história recente do Atlético, mas destacou a necessidade de o clube administrar melhor a carga física do atleta, que já se aproxima dos 40 anos.
“Em relação ao Hulk, eu concordo com o Felipe sobre a qualidade técnica. Ele é um dos grandes ídolos da história do Atlético e tem muito espaço no time. Mas infelizmente, a idade chega para todos — chegou para mim, chegou para o Felipe. E o Hulk, por mais que tenha nome de super-herói (risos), não é um super-herói de verdade”, ponderou Roger.
O ex-jogador lembrou que Hulk sempre teve um estilo de jogo baseado na força física e na explosão, o que exige cuidados redobrados.
“Ele sempre jogou todas, todo o tempo. É natural que precise descansar em alguns jogos pontuais para render mais em partidas decisivas. É uma questão de preservação, e não de desvalorização”, concluiu o comentarista.
Eric Faria: “Hulk está irritado, e isso tem atrapalhado seu jogo”
O jornalista Eric Faria também participou do debate e levantou um ponto comportamental sobre o craque atleticano. Segundo ele, Hulk tem demonstrado sinais de irritação e impaciência, tanto com o próprio rendimento quanto com as decisões do técnico Jorge Sampaoli.
“A gente percebe que ele está irritado. No jogo contra o Fluminense, ele foi substituído e saiu muito bravo, gesticulando, inconformado. Parece que as coisas não estão fluindo nem para ele nem para o time quando ele está em campo. Isso acaba gerando um nível de estresse que prejudica o rendimento”, avaliou o comentarista.
Felipe Melo compara Hulk a Cristiano Ronaldo
No fim da discussão, Felipe Melo ampliou o debate e fez uma comparação entre Hulk e Cristiano Ronaldo, citando o trabalho do técnico português Jorge Jesus no Al-Nassr, da Arábia Saudita.
“Veja o que o Jorge Jesus está fazendo com o Cristiano Ronaldo. Ele chegou agora e disse: ‘Vou administrar os jogos dele. Vai descansar em alguns, jogar outros. Quero ele bem física e mentalmente nos momentos certos’. Isso é gestão. E é o que o Sampaoli deveria fazer com o Hulk”, afirmou.
Para o ex-jogador, o atacante do Galo ainda é titular absoluto e deveria ter atuado na partida contra o Sport.
“Você joga contra o time que está entre os piores do campeonato, um jogo teoricamente mais tranquilo, perfeito para o Hulk recuperar a confiança e marcar de novo. Era o jogo ideal para ele ser titular”, argumentou.
A fala de Felipe Melo foi apoiada por parte da bancada e dividiu opiniões nas redes sociais, onde torcedores atleticanos manifestaram tanto apoio ao jogador quanto entendimento com a decisão de Sampaoli, que tem priorizado a rotação do elenco para manter o grupo fisicamente equilibrado na reta final da temporada.
A trajetória de Hulk no Atlético
Desde que chegou ao Atlético Mineiro em janeiro de 2021, após uma passagem vitoriosa pelo futebol chinês, Hulk se tornou um dos maiores ídolos da história recente do clube. Sua liderança, carisma e desempenho em campo o transformaram em referência técnica e emocional do elenco.
Com a camisa preta e branca, o atacante acumula 130 gols e 48 assistências em 272 partidas, além de um impressionante número de títulos:
5 Campeonatos Mineiros (2021 a 2025);
1 Campeonato Brasileiro (2021);
1 Copa do Brasil (2021);
1 Supercopa do Brasil (2022).
Além das conquistas, Hulk protagonizou momentos emblemáticos, como os gols decisivos nas campanhas vitoriosas e as comemorações emblemáticas com a torcida na Arena MRV. Sua dedicação e identificação com o clube o colocaram em patamar de ídolo comparável a grandes nomes do passado atleticano, como Reinaldo e Marques.
Entretanto, aos 39 anos, o atacante começa a enfrentar o desafio natural do desgaste físico, que exige gestão cuidadosa de minutagem e preparação física. O tema, que antes era tabu, hoje é tratado com mais naturalidade pelos técnicos, que buscam equilibrar o rendimento imediato com a preservação de atletas veteranos de alto rendimento.
O dilema de Sampaoli
Para o técnico Jorge Sampaoli, a situação de Hulk representa um desafio de gestão de elenco. Conhecido pelo estilo intenso e pela exigência tática, o treinador argentino tenta implementar um modelo de jogo de alta rotação e pressão constante, o que pode conflitar com as características de um jogador mais veterano.
Internamente, a comissão técnica avalia que a rotatividade é essencial para manter o grupo competitivo nas múltiplas competições do calendário nacional. Ainda assim, a ausência de Hulk entre os titulares em jogos considerados menos exigentes tem gerado questionamentos sobre a relação entre técnico e ídolo.
O debate no SporTV evidenciou um dos maiores dilemas do futebol moderno: como equilibrar respeito à história e às lideranças com a necessidade de renovação tática e física.
Enquanto Felipe Melo defende a manutenção de Hulk como titular por sua importância simbólica e técnica, outros analistas apontam que o descanso estratégico é parte de uma nova forma de lidar com o rendimento de atletas veteranos.
De qualquer forma, a discussão mostra que, mesmo fora das quatro linhas, Hulk continua sendo um personagem central do futebol brasileiro — um símbolo de garra, liderança e identificação com a torcida, cujo nome segue ecoando nas arquibancadas da Arena MRV e nos debates esportivos de todo o país.


