Adelaide Valle Pires
Psicóloga
Hoje resolvi fazer uma faxina em casa. Não exatamente porque a casa estivesse precisando, mas porque eu estava precisando fazer alguma coisa.
Estava sentindo aquela inquietação, uma sensação esquisita, uma vontade de pegar o celular, olhar uma mensagem, passear pelas redes sociais, procurar alguma coisa para fazer. E olha que nem sou tão ligada assim em telefonemas. Meu negócio é mais um WhatsApp, uma espiadinha nas redes, uma passeada despretensiosa pelo mundo virtual.
Mas experimente ficar sem o celular por algum tempo para ver o que acontece!
Parece que surge um comichão nas mãos. Uma vontade de telefonar para alguém, mandar mensagem até para quem não tem nada de novo para contar. O importante é mexer no aparelho!
Foi então que pensei: vou fazer uma faxina!
Pelo menos a casa não me oferece notificações, não tem algoritmo e, se me deixa irritada, é porque encontrei uma sujeira que não queria encontrar.
Comecei pelos cômodos, passei pelos móveis, organizei daqui, esfreguei dali. Uma atividade atrás da outra. E, enquanto eu trabalhava, meu companheiro tecnológico, o Bob, fazia a parte dele.
Até que, de repente, ouvi aquela voz familiar:
— Limpeza completa. Voltando para a base.
Olhei para o Bob e fiquei pensando…
Olha só que maravilha! O sujeito trabalha, termina o serviço, anuncia que concluiu suas tarefas e volta tranquilamente para a base. Não reclama, não procura distração, não pergunta se alguém mandou mensagem, não fica rolando a tela para ver o que está acontecendo no mundo.
O Bob tem uma vida muito bem resolvida!
E eu ali, depois de uma faxina daquelas, comecei a perceber que a limpeza da casa tinha terminado, mas a faxina mais difícil ainda estava por fazer.
A de dentro.
Porque é curioso como nos acostumamos a preencher todos os espaços vazios da vida. Um minuto de espera? Celular. Um intervalo entre uma tarefa e outra? Celular. Um momento de silêncio? Vamos ver se chegou alguma mensagem.
Parece que desaprendemos a simplesmente ficar.
E olha que não estou falando de uma dependência que necessariamente reconhecemos. Às vezes, achamos que temos total controle sobre nossos hábitos até que alguma circunstância nos impede de praticá-los. É aí que aparece a inquietação, aquela necessidade quase automática de procurar o que nos falta.
Hoje, fazendo uma faxina para controlar essa sensação, acabei encontrando uma sujeirinha mais difícil de remover: a dependência dos pequenos estímulos que ocupam nossa cabeça.
E fiquei pensando no quanto deve ser difícil o desmame de qualquer hábito que, aos poucos, deixa de ser uma escolha e passa a comandar nossos impulsos.
A gente precisa aprender novamente a conviver com o tédio, com o silêncio, com o tempo livre. Descobrir que nem todo minuto precisa ser aproveitado, preenchido ou distraído.
Enquanto isso, o Bob já está na base, descansando depois de cumprir sua missão.
E eu?
Eu terminei a faxina, mas continuo aqui, tentando encontrar o botão de desligar essa inquietação.
Vai ver preciso de uma atualização de sistema.
Limpeza externa: completa.
Limpeza interna: em andamento.
Previsão de conclusão: ainda não disponível.


