Adelaide Pires
Psicóloga de formação arqueóloga de coração
Ontem, quase no cair da noite, lembrei: os netinhos chegam hoje, domingo é meu aniversário. Nessas datas, gosto de me repaginar. Liguei para Rosana — minha amiga e cabeleireira, dessas raras que cuidam não só do cabelo, mas também da história. Mesmo de última hora, ela me encaixou cedo.
Cheguei ao salão e, entre escova e conversa, fui contando dos meus últimos achados: as cartas do meu sogro enviadas a autoridades, cheias de relatos, observações e até da fragilidade de sua saúde. Rosana ouvia e comentava enquanto seguia no trabalho.
Foi então que uma cliente, que aguardava para lavar os cabelos, pediu licença. Com delicadeza, perguntou se a pessoa a quem eu me referia era daqui de Montes Claros. Expliquei que não, que nem meu sogro nem meu pai eram daqui. Rosana, que já me conhece bem, completou: “Conta para ela das memórias do seu pai, é fantástico o seu trabalho”.
Ali senti a força da escuta ativa. Não foi intromissão: foi uma intervenção que abriu espaço. A cliente se apresentou: jornalista. No seu olhar, percebi um interesse genuíno — quase um convite. Como se dissesse: você tem uma história para contar e eu posso ser o canal para ela.
A conversa ganhou corpo. Mostrei alguns fotolivros que levei para Rosana, entre eles lembranças com imagens do pequi. Foi quando a jornalista comentou sobre suas próprias ilustrações, belas de se ver. Depois, compartilhei minhas postagens mais recentes: a homenagem ao meu pai, historiador, e o aniversário da minha netinha Alice, em que falo da origem dos nomes. Ela olhou e disse: “Você gosta de dar significado às coisas”. Em seguida, pediu para me seguir nas redes sociais.
E nesse entrelaço, surgiu a pergunta dela: como transformar tudo isso em escrita?
Foi aí que falei da minha vivência no Café do Escritor — não como propaganda, mas como fonte. Expliquei como aquele espaço me ensinou a dar corpo às histórias: as das cartas, as dos filmes, das séries, das memórias. A base que me ajudou a transformar observações soltas em narrativa.
Resumo da ópera: saí de lá com o cabelo repaginado, a alma energizada e o café marcado em minha casa para uma entrevista com a TV Gazeta do Norte de Minas. Mais do que estética, foi um encontro de sentidos, um diálogo de histórias, um verdadeiro ganha-ganha.
Ah, e para dar a pitada de diversão: lembrei de um antigo slide dos meus treinamentos de comunicação. Na tela, uma placa dizia: “Corto cabelo e pinto.”
E a pergunta aos homens: Vocês entrariam nessa barbearia?
Estou rindo agora. Porque no fundo, a vida é mesmo assim: comunicação é escolha de palavras — e, quando bem usadas, elas podem abrir portas, provocar risos e até transformar destinos.


