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ENTREVISTA | Silvana Mameluque: “Eu não vou levar nada dessa terra, então vou levar o que eu vivi” - Rede Gazeta de Comunicação

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ENTREVISTA | Silvana Mameluque: “Eu não vou levar nada dessa terra, então vou levar o que eu vivi”

PAULA PEREIRA

Nascida às margens do Rio São Francisco, em Pirapora, Silvana Mameluque construiu uma trajetória marcada pela cultura, pelo turismo, pela comunicação, pela fotografia e pelas viagens. Filha de funcionário público federal, mudou-se ainda adolescente para Montes Claros, onde consolidou sua vida profissional e pessoal.

Bacharel em Turismo, Silvana viveu durante duas décadas em Belo Horizonte, retornou a Montes Claros, ingressou no serviço público municipal e, há décadas, atua nas áreas de cultura, turismo, eventos e comunicação. Fotógrafa por paixão, mantém desde 2011 um acervo de registros da cidade e de seus acontecimentos.

Nesta entrevista à jornalista Paula Pereira, Silvana fala sobre infância, família, trabalho, viagens, fotografia, pertencimento e sobre a decisão de continuar trabalhando mesmo estando próxima dos 70 anos.

Paula Pereira — Silvana, vamos começar pela sua história. Quem é Silvana Mameluque? Onde você nasceu e quais são as lembranças mais remotas da sua infância?

Silvana Mameluque — Eu sou piraporense. Nasci às margens do Rio São Francisco, e isso me remete a uma infância e a uma juventude esplendorosas. Cresci naquele ambiente acolhedor do rio, cercada pelas belezas naturais de Pirapora e por uma convivência muito próxima com a comunidade.

Sou filha de Marcelo Mameluque Mota e Maria Miguel Mota. Meu pai era funcionário público federal e foi designado para assumir a diretoria da Codevasf. Foi em Pirapora que meus pais iniciaram a vida familiar e onde nós, os quatro filhos, nascemos. Eu sou a mais velha. Depois vieram meus irmãos Athos,  Aramis e Soraya.

Tenho uma lembrança muito forte de Pirapora, de toda aquela convivência com o rio, com a cultura, com o artesanato, com as manifestações populares. Acho que tudo isso foi construindo, desde muito cedo, a pessoa que eu viria a ser.

Paula Pereira — E quando Montes Claros entrou na sua história?

Silvana — Quando eu tinha 16 anos, meu pai foi transferido para Montes Claros. A família veio junto. Para mim, foi uma época de descobertas, porque Montes Claros já era uma cidade muito maior do que Pirapora.

Eu cheguei aqui justamente na época do ensino médio e fui matriculada no Colégio Imaculada Conceição. Naquele período, era uma escola voltada para meninas. Minha turma era só de mulheres.

Foi uma mudança importante. Eu estava saindo de uma cidade que amava, que tinha uma dinâmica muito própria, para viver em uma cidade maior, conhecer novas pessoas e começar uma nova fase.

Paula — Você já imaginava, naquela época, que sua trajetória seria ligada ao turismo e à cultura?

Silvana — Eu tive uma infância e uma adolescência muito ligadas à cultura. Pirapora tem uma essência cultural muito forte, principalmente na música. Uma das grandes referências era Marku Ribas, que foi meu amigo de infância e adolescência e Yvinho Loppes como referência musical também de Pirapora.

Também havia o artesanato, as feiras, as danças folclóricas. Tudo isso fazia parte da nossa vida.

Além disso, meus pais eram rotarianos. Minha mãe participava da Casa da Amizade e meu pai foi presidente do Rotary Clube de Pirapora. Então eu cresci participando de movimentos sociais, de ações em benefício da comunidade.

Sempre gostei muito de participar. E havia em mim uma necessidade muito grande de liberdade, de conhecer coisas novas, de conhecer o mundo. Eu não sabia exatamente como isso aconteceria, mas já existia esse desejo.

Paula — E foi esse desejo que levou você para Belo Horizonte?

Silvana — Sim. Quando terminei o ensino médio, entendi que queria voar. Queria mudar para Belo Horizonte e fazer uma faculdade. Na época, surgiu um curso de Turismo, bacharelado, na Faculdade Newton Paiva Ferreira.

Fiz o vestibular, passei e fui para Belo Horizonte. Fiquei lá durante os quatro anos da faculdade e comecei a trabalhar na área de turismo já no terceiro ano.

Acabei permanecendo em Belo Horizonte por aproximadamente 20 anos, trabalhando com turismo e vivendo muitas experiências.

Paula — E depois você voltou para Montes Claros.

Silvana — Voltei. Prestei concurso para a Prefeitura de Montes Claros, passei e comecei a trabalhar na área de turismo. Na época, existia uma divisão de turismo dentro da Secretaria de Comércio, Indústria e Turismo. Como eu era bacharel em Turismo, consegui ficar lotada naquela secretaria e trabalhei ali durante alguns anos.

Depois fui para a Secretaria de Cultura. Foi uma mudança que fez muito sentido para mim, porque cultura e turismo estão muito próximos. Permaneci na cultura e continuo até hoje.

Há cerca de um ano, a Secretaria de Cultura passou a incorporar também o turismo. Hoje temos um departamento de turismo, com uma subsecretaria, e isso trouxe uma nova perspectiva para a profissionalização do setor.

Atuo muito na parte de divulgação, atendimento e apoio às pessoas que têm demandas tanto na cultura quanto no turismo. E estou muito feliz.

Paula — Você é uma pessoa que viaja muito. De onde vem essa paixão?

Silvana — Acho que vem daquele desejo que sempre tive de conhecer o mundo. Uma das viagens mais marcantes da minha vida foi uma viagem de motorhome pela Europa. Ficamos 35 dias e conhecemos cerca de 11 países.

Fiz essa viagem com meu irmão Atos, que já tinha experiência com motorhome, minha tia Glorinha, que é escritora, e minha prima Terezinha Araújo, que mora em Recife.

Foi uma experiência maravilhosa. Ao mesmo tempo, foi uma viagem muito corrida, porque conhecer 11 países em 35 dias significa deixar de conhecer muita coisa. Mas me deu uma bagagem cultural enorme.

Foi minha primeira viagem à Europa e eu gostei tanto que voltei outras vezes.

Paula — E Portugal entrou novamente no seu roteiro?

Silvana — Sim. Fui a Portugal algumas vezes. Conheci Lisboa, Fátima e Nazaré. As cidades são relativamente próximas e é muito fácil fazer esses deslocamentos.

Mais recentemente, nas minhas férias de junho, voltei à Europa com meus primos. Fomos novamente a Portugal, passamos por Lisboa e Porto e depois seguimos para a Itália. Também fizemos um cruzeiro.

Desembarcamos em Atenas e conhecemos a Grécia. Foi maravilhoso, mas exige preparo físico. Para subir até a Acrópole, por exemplo, são muitas escadarias.

Eu penso que fui na hora certa. Se tivesse deixado para depois, talvez não tivesse o mesmo preparo físico.

Paula — Você também já fez outros cruzeiros.

Silvana — Eu adoro cruzeiros. Há cerca de 30 anos fiz meu primeiro, passando por Uruguai, Paraguai e Argentina.

Depois fiz um cruzeiro para Miami e conheci algumas ilhas do Caribe. Também fiz uma travessia de Fortaleza até Barcelona, na Espanha, que durou oito dias. Foi nessa viagem que aproveitei para conhecer Fátima.

Eu realmente gosto muito de viajar.

Paula — O que viajar representa para você?

Silvana — Para mim, viagem é investimento. É algo que dá retorno. Ninguém tira de você as experiências que viveu.

Você conhece pessoas, culturas, belezas naturais, culinária. É um enriquecimento cultural e pessoal.

Eu penso assim: não vou levar nada dessa terra. Então vou levar o que eu vivi.

Sou muito grata pela família que tenho, que é minha base, meu suporte. E também tenho uma gratidão enorme por Montes Claros.

Quando meu pai foi transferido para cá, nós fomos muito bem acolhidos. Montes Claros era uma cidade em desenvolvimento e hoje é uma cidade que explodiu, cresceu muito.

Tenho uma gratidão muito grande pelas amizades que conquistamos aqui. Minha família inteira criou raízes na cidade. Eu posso dizer que amo Montes Claros e aprendi a amar Montes Claros.

Paula — Você passou 20 anos em Belo Horizonte. O que ficou daquela época?

Silvana — Ficaram grandes amizades, muitas delas que permanecem até hoje. Foi uma experiência muito importante profissionalmente e pessoalmente.

Mas minha base está em Montes Claros. Hoje também frequento São Paulo onde meu filho  Matheus, minha nora Valéria e Neto Matheusinho e Theo residem. Eu digo que posso até passar uma temporada em qualquer lugar, mas minha base é aqui.

Hoje também divido um pouco minha vida com São Paulo, porque tenho um filho que mora lá e uma família maravilhosa. Ele me deu dois netos, e isso também é uma grande realização.

Paula — Você está chegando aos 70 anos e continua trabalhando. Por que não se aposenta?

Silvana — As pessoas me perguntam muito isso. Eu digo que vou me aposentar no dia em que sentir que meu corpo não está mais respondendo, no dia em que alguém da minha família precisar de mim ou no dia em que acabar a paixão pelo trabalho.

Eu faço exatamente o que gosto. Quando saio de casa para trabalhar, sei que o mundo não me espera parado, porque todos os dias são diferentes.

Já trabalho há aproximadamente 50 anos. Minha carteira foi assinada quando eu tinha 19 anos. Estou chegando aos 70 e continuo trabalhando porque ainda tenho motivação.

Paula — E a fotografia? Como ela entrou na sua vida?

Silvana — Eu sempre fui a fotógrafa da família. Desde muito tempo.

Há aproximadamente 15 anos fiz um curso de fotografia profissional no Senac. A partir daí, comecei a me sentir mais segura com a câmera e passei a fotografar mais.

Depois descobri o Flickr, que é uma plataforma muito utilizada para fotografia. Isso aconteceu por volta de 2011.

Comecei a colocar ali minhas fotos e minhas coberturas de eventos. Quando participo de um evento cultural, social ou político, fotografo e organizo o material no Flickr.

Tenho arquivos de coberturas desde 2011. Se alguém me procura dizendo: “Silvana, você tem aquela fotografia que tirou de mim naquela festa?”, eu consigo localizar.

De certa maneira, estou eternizando esses momentos.

Paula — Você sente que acabou construindo um arquivo histórico de Montes Claros?

Silvana — Sim. E acredito que foi justamente isso que trouxe uma valorização para o meu trabalho. Eu sinto que estou criando um arquivo histórico da cidade. Por causa desse trabalho, já recebi algumas homenagens importantes.

Tenho vínculos com instituições culturais e sociais, como o Instituto Histórico e Geográfico de Montes Claros e conselhos municipais. Participo do Conselho Municipal de Turismo e do Conselho Municipal da Mulher.

Ser convidada para fazer parte do Instituto Histórico e Geográfico de Montes Claros foi uma honra muito grande.

Não vejo isso como vaidade. É uma questão de pertencimento.

Paula — Pertencimento é uma palavra forte na sua história.

Silvana — É. Porque nós não nascemos aqui, mas fomos acolhidos aqui. E ser reconhecida por uma cidade que não é a sua cidade natal, mas que você aprendeu a amar, é muito significativo.

É uma sensação muito boa de pertencimento. É saber que, de alguma forma, você conseguiu deixar sua marca e contribuir com a cidade.

Paula — E o que você procura registrar quando fotografa?

Silvana — Eu fotografo com o propósito de registrar. Gosto da ideia de deixar uma memória, uma possibilidade de consulta no futuro.

Claro que também gosto de ter minhas próprias fotos. Quando chego a um evento, peço para alguém fazer uma fotografia minha antes de começar o trabalho. Depois eu assumo a câmera e começo a fotografar.

Meu objetivo principal é deixar registros. Acho que um dia isso também ficará para minha família.

Paula — Você gosta de ser fotografada?

Silvana — Gosto, mas preciso saber como estou sendo fotografada. Conheço meus ângulos.

Não sou muito de fotografias totalmente espontâneas. Preciso me posicionar.

Paula — Para finalizar, o que você gostaria de dizer?

Silvana — Primeiro, quero agradecer e parabenizar você pelo trabalho que está fazendo.

Eu mesma já tive muito pudor de pensar: “Por que eu vou dar uma entrevista? Eu nunca achei que tivesse um trabalho que merecesse ser contado”.

Mas depois percebi uma coisa: se as pessoas estão chamando você para contar sua história, é porque elas enxergam que existe alguma coisa que vale a pena ser registrada.

E é isso que você está fazendo. Está contando histórias de pessoas. Gostaria de agradecer também a todas as homenagens recebidas ao longo dos anos de Instituições e profissionais da imprensa.