POR PAULA PEREIRA
Histórias de superação costumam nascer em cenários desafiadores, onde a ausência de oportunidades é, muitas vezes, a regra. Para algumas pessoas, essas dificuldades se tornam combustível para uma jornada marcada por resiliência, fé e propósito.
Esse é o caso da cirurgiã-dentista Kelly Salomão, que construiu sua trajetória a partir de uma infância humilde em Montes Claros, no Norte de Minas, e encontrou no acolhimento social e na educação as bases para transformar sua realidade.
Nesta entrevista, Kelly relembra sua infância, compartilha os desafios vividos dentro e fora de casa, destaca a importância do CCVEC em sua formação e com isso refletiu sobre sua familia, propósito e superação.
PAULA PEREIRA: Kelly, vamos começar do início. Conte para nós quem é você, sua origem e suas primeiras lembranças.
KELLY SALOMÃO: Eu sou Kelly Salomão, cirurgiã-dentista, nascida e criada em Montes Claros, no Norte de Minas. Sou filha de Agenor Gomes Ferreira e Maria Rodrigues Salomão.
A minha história começa antes mesmo do meu nascimento, a partir da trajetória dos meus pais, que tiveram uma infância marcada por muitas limitações. Eles cresceram em um contexto de grande escassez, onde faltava praticamente tudo. Ainda muito jovens, por volta dos 10 anos, precisaram sair de casa para trabalhar e sobreviver.
Essa realidade fez com que desenvolvessem uma visão muito clara sobre o valor do estudo — algo que decidiram priorizar para nós, filhos.
PAULA PEREIRA: E como foi a sua infância dentro desse contexto?
KELLY SALOMÃO: Eu cresci em uma região da cidade que, na época, era considerada área de risco social. As famílias enfrentavam muitas dificuldades, tanto financeiras quanto estruturais. Era comum presenciar situações de vulnerabilidade, violência e envolvimento com drogas.
Dentro da minha casa, a realidade também era desafiadora. Meus pais trabalhavam muito. Meu pai passava longos períodos fora, e minha mãe trabalhava o dia inteiro. Desde muito pequena, assumi a responsabilidade de cuidar dos meus irmãos.
Sou a filha do meio, e isso me colocou naturalmente nesse papel de cuidado. Ajudava na casa, acompanhava meus irmãos e, de certa forma, amadureci cedo.
Além disso, enfrentei situações delicadas no ambiente familiar, relacionadas à saúde e a conflitos constantes entre meus pais. Apesar dos desafios, essa vivência me ensinou muito sobre responsabilidade, empatia e resiliência.
PAULA PEREIRA: Nesse cenário, onde entra o CCVEC na sua vida?
KELLY SALOMÃO: O CCVEC foi essencial na minha trajetória. Costumo dizer que foi um verdadeiro ponto de transformação. Na época, funcionava como uma creche comunitária, mas era muito mais do que isso — era um espaço de acolhimento, cuidado e oportunidades.
Comecei a frequentar ainda muito pequena, por volta dos quatro anos. Lá, tínhamos reforço escolar, atividades de artesanato, momentos de lazer e, principalmente, alimentação. Para muitas crianças, inclusive para mim, aquilo fazia toda a diferença.
Mas o mais importante era o acolhimento. Era um lugar onde eu me sentia vista, cuidada e valorizada.
Tenho lembranças muito marcantes desse período. Em uma atividade, perguntaram qual era o nosso sonho, e eu respondi que queria ter um café da manhã como os das novelas. Pode parecer simples, mas, para mim, aquilo representava o desejo de viver uma realidade diferente.
Também foi ali que tive contato com coisas que nunca tinha visto antes, como um computador. São experiências que ampliam horizontes e despertam sonhos.
PAULA PEREIRA: Você acredita que esse ambiente influenciou suas escolhas no futuro?
KELLY SALOMÃO: Sem dúvida. O CCVEC despertou em mim um olhar mais humano e um desejo genuíno de retribuir. Sempre quis trabalhar com algo que pudesse impactar a vida das pessoas.
Desde cedo, me via na área da saúde. Eu queria cuidar, ajudar e transformar realidades — talvez porque eu mesma fui transformada por pessoas que acreditaram em mim.
Com a maternidade, precisei reorganizar meus planos acadêmicos e priorizar a família. Com o tempo, retomei minha trajetória e me formei em Odontologia. Hoje, atuo como cirurgiã-dentista e sigo em constante aprimoramento, porque acredito que o aprendizado é contínuo.
PAULA PEREIRA: Você chegou a voltar ao CCVEC depois de formada?
KELLY SALOMÃO: Sim, e foi uma das experiências mais marcantes da minha vida. Durante a pandemia, participei de um projeto de saúde bucal no local, levando orientação e cuidados para as crianças.
Voltar ali, depois de tantos anos, agora como profissional, foi muito simbólico. Pude reconhecer, naquele espaço, o início da minha história.
Compartilhei minha trajetória com as crianças, mostrando que eu já estive ali, vivendo uma realidade semelhante. Foi uma forma de dizer, na prática, que é possível sonhar e conquistar.
Além disso, esse retorno contribuiu para fortalecer ações sociais no local, o que me traz muita realização.
PAULA PEREIRA: E hoje, como é a sua família?
KELLY SALOMÃO: Hoje sou casada e tenho três filhos: Kauan, Luiz Gustavo e Mateus. Meu esposo também tem uma história de vida desafiadora — ele perdeu a mãe muito cedo e foi criado pelos avós.
Nós dois viemos de realidades difíceis, e isso nos ensinou muito sobre parceria, empatia e construção familiar.
Hoje conseguimos oferecer aos nossos filhos oportunidades que não tivemos, como uma educação de qualidade e mais conforto. Ainda assim, fazemos questão de ensinar valores.
Sempre digo a eles que o estudo é algo que ninguém pode tirar. Também reforço a importância da responsabilidade, do respeito e da resiliência. Mesmo com mais recursos, é essencial compreender o valor das conquistas.
PAULA PEREIRA: Olhando para sua trajetória, o que mais te marca?
KELLY SALOMÃO: O processo. Aprendi que nenhuma conquista vem pronta — ela é construída ao longo do caminho, muitas vezes nos momentos mais desafiadores.
Existem obstáculos, dúvidas e até desânimo, mas tudo contribui para o nosso crescimento.
Hoje, não carrego mágoas do meu passado. Pelo contrário, reconheço que cada etapa foi importante para formar quem eu sou.
PAULA PEREIRA: Você passou por momentos difíceis também na vida adulta, não é?
KELLY SALOMÃO: Sim. Em determinado momento, precisei me afastar das minhas atividades por uma questão de saúde importante.Foi um período de muito medo, ansiedade e incerteza. Eu sempre fui uma pessoa ativa, que buscava resolver tudo, e, de repente, precisei desacelerar.
Esse momento me trouxe aprendizados valiosos. Entendi que nem tudo está sob o nosso controle e que é fundamental confiar, ter fé e respeitar o tempo das coisas.
PAULA PEREIRA: Que lições você tirou de tudo isso?
KELLY SALOMÃO: Aprendi que precisamos cuidar de três pilares: saúde física, mental e espiritual. Sem esse equilíbrio, é difícil seguir em frente de forma plena.
Também passei a valorizar mais os pequenos momentos — uma conversa, um café, um nascer do sol. São coisas simples, mas que fazem toda a diferença.
E uma reflexão que levo para a vida é que nós somos como filtros: precisamos aprender a absorver o que nos faz bem e deixar ir aquilo que nos faz mal.
PAULA PEREIRA: Para finalizar, qual é o seu maior propósito hoje?
KELLY SALOMÃO: Meu propósito é continuar transformando vidas, seja por meio da minha profissão ou da minha história. Quero ser instrumento de inspiração para outras pessoas, especialmente aquelas que vêm de realidades semelhantes à minha. Também desejo desenvolver projetos sociais, principalmente no bairro onde cresci. É uma forma de retribuir tudo o que recebi e de mostrar que, independentemente de onde você começa, é possível construir um novo caminho.



