ENTREVISTA | A história de Ricardo Dias e a evolução da panificação em Montes Claros - Rede Gazeta de Comunicação

PUBLICIDADE

ENTREVISTA | A história de Ricardo Dias e a evolução da panificação em Montes Claros

PAULA PEREIRA: Para começarmos, poderia dizer seu nome completo e falar um pouco sobre sua origem?

RICARDO: Sou Ricardo. Sou o 11º filho de uma família de 12 irmãos. Minha história é muito ligada à família e à vida no campo. Meu pai era de Francisco Sá e minha mãe de Coração de Jesus. Sempre viveram na fazenda, em Coração de Jesus. À medida que os filhos iam nascendo e crescendo, muitos vieram para Montes Claros para estudar. Naquela época, as crianças começavam a estudar por volta dos sete anos, e os irmãos mais velhos cuidavam dos mais novos.

PAULA PEREIRA: E como foi sua infância?

RICARDO: Foi uma infância muito ativa. Meus irmãos costumavam brincar dizendo que eu era o “xodó” do meu pai, que me adulava bastante. Eu sempre fui muito inquieto, ansioso, com vontade de ver as coisas acontecerem rápido. Durante as férias, ia para a fazenda e, mesmo sendo criança, já ajudava nos trabalhos. Essa vontade de fazer acontecer sempre esteve presente em mim.

PAULA PEREIRA: Você começou a trabalhar cedo, não é?

RICARDO: Sim. Comecei a trabalhar com 12 anos. Sempre conciliei estudo e trabalho. Finalizei o ensino médio e tive experiências profissionais importantes. Trabalhei na construção civil, cuidando de obras, e depois passei cerca de três anos e meio trabalhando com uma pessoa de Montes Claros, experiência que considero uma verdadeira escola. Atuava no escritório, fazendo controle administrativo, compras, gestão de funcionários, acompanhamento de fazendas, cotação de peças em várias cidades. Foi um período de enorme aprendizado.

PAULA PEREIRA: Depois disso você voltou para a fazenda?

RICARDO: Exatamente. Saí desse emprego e voltei para a fazenda, onde trabalhei com agricultura e pecuária junto com meus pais. Permaneci lá por cerca de dez anos. Nesse período, entrei para a política e fui vereador em Coração de Jesus, chegando a presidir a Câmara Municipal.

PAULA PEREIRA: Quando Montes Claros voltou a fazer parte da sua trajetória?

RICARDO: Após o casamento. Tive duas filhas, e quando elas começaram a fase escolar, decidimos retornar para Montes Claros. Na época, já tínhamos uma atividade de fornecimento de queijos produzidos na fazenda para padarias da cidade. Foi aí que surgiu a oportunidade de empreender diretamente no setor.

PAULA PEREIRA: E como nasceu a padaria?

RICARDO: Eu sempre gostei de empreender. Juntou-se a necessidade com a vontade de investir. Não tinha experiência em panificação, então fui a Belo Horizonte fazer cursos, estágios e treinamentos em boas padarias. Em 1994, montamos a primeira unidade da Center Pão. Trouxemos um modelo inovador para a cidade: padaria em sistema de autosserviço, funcionamento de domingo a domingo, das 6h às 22h — algo incomum na época.

PAULA PEREIRA: Quais foram os diferenciais naquele início?

RICARDO: Além do autosserviço e do horário ampliado, sempre priorizamos matéria-prima de qualidade e investimento em equipamentos. Trouxemos profissionais experientes, inclusive gente que havia trabalhado em grandes centros. A padaria teve um sucesso quase imediato, o que nos levou à expansão.

PAULA PEREIRA: A empresa cresceu em um modelo familiar, certo?

RICARDO: Sim. A empresa acabou se tornando essencialmente familiar. Inicialmente éramos alguns sócios, depois irmãos passaram a integrar o negócio. Com o tempo, surgiram desafios típicos de sociedades maiores, especialmente porque cada unidade tinha sua própria composição societária. Em determinado momento, foi necessário reorganizar as estruturas, e hoje trabalhamos basicamente em dois grupos societários, mantendo a mesma marca.

PAULA PEREIRA: A busca por inovação sempre esteve presente?

RICARDO: Sempre. Participamos de feiras, buscamos novas tecnologias, novos produtos. Nossa filosofia sempre foi clara: não reduzir custo à custa da qualidade. Preferimos trabalhar com os melhores insumos e equipamentos possíveis.

PAULA PEREIRA: Hoje uma de suas filhas atua na empresa. Como é essa dinâmica?

RICARDO: Ela já participa da sociedade, mas exerce função profissional, como qualquer outro gestor. Temos uma estrutura bem definida: quem atua na direção recebe salário pelo trabalho que realiza. É uma relação profissional, com regras claras e transparência.

PAULA PEREIRA: Você também tem forte atuação sindical. Como começou essa participação?

RICARDO: Desde o início percebemos a importância da organização do setor. Na época, o sindicato local não era muito ativo, então nos filiamos ao sindicato de Belo Horizonte, o que nos deu acesso a consultorias e treinamentos. Posteriormente, fui convidado a participar do sindicato regional, o SINDPAN/Norte, com o apoio da FIEMG. Assumi a presidência em um período de reestruturação, buscando tornar a entidade mais atuante.

PAULA PEREIRA: Que mudanças o setor vivenciou ao longo desses anos?

RICARDO: Houve uma verdadeira virada de chave. Um projeto de gestão orientada por resultados, desenvolvido com apoio do Sebrae, foi fundamental. Muitos empresários passaram a entender melhor custos, formação de preços, gestão tributária, processos produtivos. Isso transformou o perfil das padarias da região.

PAULA PEREIRA: Quais são hoje os principais desafios do setor?

RICARDO: A mão de obra é uma grande dificuldade. A padaria funciona praticamente 24 horas, exige ritmo intenso. Também enfrentamos o desafio de conscientizar empresários sobre a importância do sindicato como espaço de apoio, qualificação e representatividade.

PAULA PEREIRA: Que conselho você deixaria para quem está entrando no mercado?

RICARDO: Não é um caminho fácil. É preciso dedicação, compromisso e disposição para trabalhar muito. Mas é extremamente gratificante. Quem profissionaliza o negócio, investe em gestão e qualidade, consegue construir uma trajetória sólida e sustentável.

PAULA PEREIRA: E olhando para trás, você imaginava essa trajetória?

RICARDO: Sinceramente, não. Sempre tive o desejo de ter sucesso, de construir algo relevante, mas o caminho foi sendo desenhado com trabalho, aprendizado e persistência.

PAULA PEREIRA: Para encerrarmos, qual é a visão para o futuro?

RICARDO: Continuar investindo, expandindo de forma responsável, fortalecendo a indústria própria e contribuindo para o desenvolvimento do setor. E, claro, preparando a sucessão — algo essencial para qualquer empresa e entidade.

Continuar investindo, expandindo de forma responsável, fortalecendo a indústria própria e contribuindo para o desenvolvimento do setor. Para isso, estamos implantando uma fábrica própria, não só para fornecer às nossas unidades, mas também para supermercados e padarias da região.  E, claro, preparando a sucessão — algo essencial para qualquer empresa e entidade.

O Diretor do Jornal Gazeta Norte Mineira Paulo Pereira, Ricardo Dias presidente do Sindicato dos Panificadores, a jornalista Paula Pereira, e Paulo Vitor Lopes diretor da Vigillar