Adelaide Valle Pires
Psicóloga
Eu procuro aprender com tudo.
Com as cenas que a vida me oferece, com uma frase que aparece num filme, com um episódio de uma série, com um vídeo que atravessa a tela do celular, com uma conversa com meus netos. E, ontem, no Trem PEP, aprendi muito com as minhas próprias passageiras.
O Trem PEP é feito de paradas, escolhas e propósitos. E o combustível dessa viagem são os sonhos.
Enquanto conversávamos sobre sonhos e sobre o que fazemos para tirá-los do campo das ideias e colocá-los em movimento, eu também trouxe alguns exemplos da minha própria caminhada.
Não para falar de mim, mas para mostrar que sonho também se constrói com escolhas, caminhos e persistência.
E, como uma boa arqueóloga, eu tinha algumas evidências à mão.
Quando contei sobre uma carta que meu marido me escreveu quando ainda éramos namorados, não precisei apenas contar. A carta estava ali: amarelada pelo tempo, com alguns furinhos, guardando uma história que atravessou décadas.
Quando falamos de família e de pertencimento, o quadro da genealogia estava na parede. Quando surgiu a conversa sobre memória e esquecória, havia também uma pequena xícara centenária, de porcelana fina, herança da minha bisavó.
Os objetos não eram o assunto.
Eram as evidências de que algumas histórias começam muito antes de a gente perceber onde elas vão dar.
Ao longo da tarde, foram surgindo outras evidências: registros escritos, ferramentas que criei em diferentes momentos da minha trajetória e objetos que atravessaram gerações.
Foi nesse conjunto de histórias, registros, criações e objetos que uma das passageiras percebeu algo e disse, espontaneamente:
“Isso foi muito antes do ChatGPT.”
Gostei daquela frase.
Porque ela não colocou a tecnologia como vilã. Também não diminuiu o que a tecnologia pode fazer hoje.
Ela reconheceu algo muito maior: o papel do humano.
As ideias nasceram de mim. As perguntas nasceram de mim. A criatividade, as inquietações, as conexões e os projetos também.
O que mudou foram as ferramentas.
A Adelaide de ontem usava as ferramentas disponíveis naquele tempo. A Adelaide de hoje continua fazendo a mesma coisa: procura a ferramenta que melhor consiga dar forma às suas ideias.
Foi então que me lembrei de uma frase que ouvi da Yaritza, em 2024, no meu primeiro contato com o Café do Escritor:
“Você não é burrinha tecnológica. Você é uma exploradora da tecnologia.”
Hoje, eu ressignifico aquela frase.
Sou psicóloga por formação, arqueóloga de coração e exploradora de possibilidades.
A arqueóloga olha para o passado.
A exploradora de possibilidades se aventura pelo futuro.
Mas existe um lugar onde as duas se encontram: o presente.
O aqui e o agora.
Foi ali, no Trem PEP, entre cartas amareladas, genealogias, porcelanas, histórias, conversas, risadas e descobertas, que percebi mais uma vez que passado e futuro não precisam disputar espaço.
Eles podem se encontrar no presente e trabalhar juntos.
E aí entra a minha amiga Iara — Inteligência Artificial Rápida.
Tenho discussões homéricas com ela quando resolve querer mudar alguma coisa que é minha. Sou muito boazinha, mas, quando ela mexe na minha foto, já sabe:
“Calma, Iara. Quem manda na minha vida sou eu!”
No fim das contas, é exatamente essa a parceria que acredito existir entre nós e a tecnologia:
ela pode ajudar a dar forma à ideia, mas a autoria continua tendo nome, história e identidade.


