O dia mal clareou e o Mercado Municipal de Montes Claros já respira. Antes mesmo do sol firmar presença no céu quente do Norte de Minas, o coração da cidade bate apressado sob o telhado antigo. As primeiras vozes rompem o silêncio da madrugada, misturadas ao ranger das portas de ferro, ao arrastar das caixas de madeira e ao estalo seco das lonas sendo abertas. É ali que Montes Claros acorda.
Fundado para ser ponto de abastecimento e escoamento da produção regional, o mercado nasceu da necessidade e cresceu junto com a cidade. Seu nome carrega a simplicidade do que ele sempre foi: municipal, público, do povo. Um espaço pensado para reunir quem planta, cria, produz e vende, ligando o campo ao urbano, a roça ao balcão, o saber antigo ao consumo cotidiano. Ao longo das décadas, resistiu às transformações do comércio moderno sem perder a essência. Ali, o tempo não corre apressado — ele caminha no passo manso da tradição.
Logo cedo, as bancas exibem os frutos tropicais e da época como um retrato vivo do sertão: mangas graúdas, bananas-da-terra, mamão, laranjas, limões, melancias, abacaxis, além de abóboras, quiabo, maxixe, jiló e raízes que sustentam gerações. É nesse cenário que trabalha José Antônio Alves, feirante conhecido pela banca de frutas tropicais e sazonais, sempre frescas, coloridas e vindas diretamente dos produtores da região.
Os temperos ocupam um território próprio dentro do mercado. Alho trançado, cebola, pimentas de todas as qualidades, cominho, colorau, açafrão-da-terra, ervas secas e frescas perfumam os corredores. Maria do Carmo, conhecida por todos como Carminha, é referência nesse segmento. Sua banca reúne pimentas, temperos, especiarias, pequi e flores, compondo um espetáculo de cores e aromas que convida o visitante a caminhar sem pressa.










Na ala dos pescados, tradição também fala alto. Clarisse Xavier Gomes trabalha há mais de 40 anos na venda de peixes, salgados e frescos. Com olhar atento e mãos ágeis, ela conta que cresceu no ramo e viu o mercado mudar sem perder a alma. Seu balcão é procurado por quem conhece o valor do peixe bem tratado e da confiança construída ao longo do tempo.
A experiência também marca a trajetória de José Pereira dos Santos, feirante há mais de 50 anos no mercado. Ele vende produtos de diversos pequenos produtores de Montes Claros e região, funcionando como elo entre quem produz no campo e quem consome na cidade. Sua banca é um retrato da economia local que se sustenta na parceria e na confiança.
Entre uma compra e outra, o mercado vira sala de estar. Amigos param para colocar o papo em dia, trocam notícias, comentam a vida, falam da chuva, da colheita e do time do coração. Caminham sem pressa, passeando por entre os cheiros, as cores e os barulhos do lugar, porque ali o ato de comprar é também o prazer de estar.
Os sons formam uma trilha própria: o pregão dos feirantes, a risada solta, o barulho das facas batendo na madeira, o tilintar das moedas. Em alguns cantos, a moda de viola ecoa baixa, vinda de um rádio antigo, trazendo letras que falam de saudade, estrada e vida simples, embalando o ritmo do mercado.
O setor de carnes é um dos mais simbólicos. A famosa carne de sol, bem curada, passa pelo processo tradicional: a carne fresca recebe o sal na medida certa e “curte” no tempo exato até se transformar no produto que é símbolo da região. A carne marmorada chama atenção pela qualidade, enquanto os cortes suínos — costela, lombo, pernil, toucinho e pele para torresmo — garantem presença constante nas sacolas dos fregueses.
É também na relação direta com o cliente que muitos feirantes constroem sua história. Valmir Pereira Alves, com banca no mercado há cerca de 40 anos, acredita que o sucesso do seu trabalho está no atendimento e na qualidade dos produtos oferecidos. Para ele, o cliente que chega bem recebido sempre volta — e ainda recomenda a banca para os amigos, fortalecendo uma rede de confiança que atravessa gerações.
Ao redor, multiplicam-se as lojas de produtos naturais: castanhas, sementes, farinhas integrais, frutas secas e cristalizadas, temperos e condimentos variados. Fernanda mantém viva uma loja que pertenceu à mãe e está no mercado há mais de 40 anos. Ali, vende produtos naturais, itens para pré-treino, petiscos, temperos e condimentos, atraindo desde atletas até quem busca uma alimentação mais saudável.
O mercado de flores frescas é outro espetáculo à parte. As cores vivas e os perfumes suaves encantam os olhos e dão ainda mais charme ao ambiente, contrastando com o concreto e lembrando que o mercado também é espaço de beleza
Doces de leite, goiabadas, doces cristalizados, cachaças da região, mel, polpas de frutas e frango caipira figuram entre os produtos mais procurados. A riqueza do que é produzido pelo pequeno produtor de Montes Claros e entorno se revela em cada banca, em cada conversa, em cada história compartilhada.
Na área das hortaliças, Neuza Amaral vende produtos orgânicos e garante: podem ser consumidos sem preocupação. Já Luci oferece uma variedade que inclui temperos, farinhas, biscoitos e beiju, mantendo viva a culinária tradicional.
O mercado também é feito de quem compra. Generson Patrício diz que gosta de voltar sempre para comprar queijo e cachaça na banca 18, onde é cliente fiel há anos. Pedro Henrique Azedo, estudante, afirma que toda vez que vai ao mercado passa na Pastelaria Uai para comer um pastel e tomar um cafezinho. O estabelecimento é comandado por Rosane, dona de uma das pastelarias mais tradicionais do mercado, ponto de parada obrigatório para quem circula por ali.
Entre os fregueses assíduos está Maria Helena, aposentada, que toda semana percorre os corredores para fazer a feira, manter a rotina e encontrar conhecidos. Porque no mercado, comprar é também conviver.
Mais que um espaço de comércio, o Mercado Municipal de Montes Claros é memória viva, economia pulsante e identidade coletiva. É onde a cidade se reconhece, onde o passado conversa com o presente e onde o Norte de Minas reafirma, todos os dias, sua força, sua cultura e suas raízes.


