Adelaide Valle Pires
Autora
Em um livro sobre poder, encontrei a história de um ministro francês que, desejando impressionar o rei, construiu um palácio magnífico: jardins exuberantes, arquitetura impecável e uma festa memorável para celebrar a visita real.
À primeira vista, trata-se de um episódio sobre vaidade e excesso. Mas, ao revisitá-lo, percebo que ele fala de algo mais profundo: a distância entre intenção e percepção.
A intenção pode ter sido agradar. Demonstrar lealdade, competência, reconhecimento.
O rei, porém, viu outra coisa.
Onde o ministro enxergava homenagem, o soberano percebeu ameaça. Onde havia orgulho pela obra, surgiu a sensação de invasão de espaço. O desfecho é conhecido: o ministro foi preso, e o palácio entrou para a história como símbolo de um brilho que ultrapassou a medida tolerada.
Nem sempre somos lidos pelo que desejamos expressar, mas pelo que o outro compreende ao receber nosso gesto. E percepção não é verdade absoluta. É filtro. É história pessoal. Pode ser medo, culpa, insegurança — ou apenas outro repertório.
Há um antigo provérbio que diz: “De boas intenções o inferno está cheio.” Não basta querer bem. É preciso considerar como o gesto será percebido.
Quantas vezes uma ajuda é interpretada como intromissão?
Quantas vezes uma contribuição é sentida como competição?
Quantas vezes o entusiasmo de um soa como excesso para outro?
É por isso que observo histórias. Nos livros, nos filmes, nas séries, nas conversas ao redor da mesa, nos relatos de acertos e erros compartilhados. Ao acompanhar as quedas alheias, ampliamos o discernimento antes que a queda precise ser nossa.
No fim, comunicação não é apenas o que dizemos ou fazemos. É o que o outro consegue enxergar no que dissemos ou fizemos.
Talvez sabedoria não seja apagar o próprio brilho, mas aprender a compreender o olhar que nos observa.


