Adelaide Valle Pires
Autora
Estava aqui no meu momento preferido: aprender.
Gosto disso. De sentar, olhar anotações, voltar às conversas, juntar pedaços de ideias como quem arruma a mesa depois de um café demorado.
Foi assim que, sem perceber, fui criando um pequeno mapa para a minha escrita.
Nada muito sofisticado. Só um jeito de olhar para o que escrevo antes de colocar no mundo.
Primeiro vem a água.
É o momento em que as ideias correm soltas, sem julgamento. A escrita ainda não tem forma definida — e nem precisa ter. Ela apenas flui.
Depois entra o ar.
O texto descansa. E a cabeça também. É o tempo de dar espaço, de deixar as palavras respirarem.
Aí chega a terra.
É quando volto com mais atenção. Vejo se o texto tem chão, se alguém pode se reconhecer ali, se alguma memória foi tocada, se a conversa continua aberta.
E, por fim, vem o fogo.
A decisão de publicar. De soltar o texto para circular — num jornal, numa rede, numa conversa.
Outro dia, organizando esse processo, percebi algo curioso: no fundo, eram quatro elementos guiando a minha escrita.
E talvez não seja só a escrita.
Talvez a vida também peça esse mesmo movimento:
deixar fluir, pausar, ajustar e, só então, agir.
Neste dia em que celebramos a água, fico com esse lembrete simples — e necessário:
nem tudo precisa nascer pronto.
Algumas coisas precisam apenas encontrar o seu caminho.
E, como a água, seguir.



