Paula Pereira
Jornalista | Programadora Visual | Analista de Marketing
Entre o guarda-chuva, o balde e o pedido de socorro, o Norte de Minas descobre que enfrentar a força da natureza é mais complicado do que anunciar uma força-tarefa.
Temporada de chuva em Minas é assim: a Defesa Civil faz seminário, o governo entrega viaturas, especialistas apresentam gráficos e a população corre para recolher a roupa do varal, conferir as goteiras e perguntar se o córrego está subindo.
Planejamento importa. Equipes treinadas, alertas e obras de drenagem salvam vidas. Mas existe uma verdade inconveniente: por mais que uma região se prepare, nunca estará totalmente pronta para uma natureza que não obedece ao calendário, não respeita divisas municipais nem espera o fim da licitação.
No Norte de Minas, a ironia é cruel. Passamos meses esperando água para abastecer cidades e salvar lavouras. Quando ela chega em excesso, queremos uma chuva educada, que molhe a terra sem derrubar árvores, inundar ruas ou destruir estradas. Só que o clima não trabalha com essa delicadeza.
Dizer que a natureza está se vingando rende manchete, mas ela não tem raiva nem planeja revanche. O problema é uma sociedade que desmata, queima, ocupa áreas vulneráveis, impermeabiliza o solo e sufoca cursos d’água. Depois, quando a enxurrada invade a rua, perguntamos por que a água não ficou no lugar dela. Talvez porque tenhamos alterado justamente o caminho por onde precisava passar.
Nem toda tempestade é consequência direta da ação humana, e nenhum episódio isolado pode ser atribuído automaticamente às mudanças climáticas. O El Niño, caracterizado pelo aquecimento anormal das águas do Pacífico equatorial, pode alterar os padrões de chuva e temperatura, mas seus efeitos em Minas variam. Não dá para responsabilizá-lo por cada telha arrancada pelo vento.
O que podemos fazer, porém, está ao nosso alcance: preservar nascentes e vegetação, melhorar a drenagem, fiscalizar ocupações de risco e manter bueiros desobstruídos. Não controlamos as nuvens, mas podemos evitar que o lixo transforme uma rua em rio.
Montes Claros e os municípios da região precisam de planejamento permanente, infraestrutura e sistemas de alerta eficientes. A entrega de viaturas e a capacitação de agentes são importantes, mas prevenção não pode se resumir a fotografias oficiais. Precisa aparecer na rua que não alaga, na encosta protegida e na família avisada antes do perigo.
A região conhece os dois extremos: a água que falta e a que chega com violência. Preparar-se melhor é possível; controlar a natureza, não. A obrigação do poder público e da sociedade é reduzir riscos, proteger vidas e deixar de fabricar vulnerabilidades por descuido.
Quando o céu fecha sobre o Norte de Minas, não adianta culpar apenas São Pedro, o El Niño ou a nuvem que chegou sem avisar. É preciso olhar também para a árvore derrubada, o córrego sufocado e a área de risco que fingimos não enxergar.
A natureza seguirá suas leis, com uma força que não cabe em decreto. E, se São Pedro estiver mesmo perdendo a paciência, convém avisar: não existe guarda-chuva grande o bastante para proteger uma sociedade que insiste em desproteger a própria casa.


