Editorial | QUANDO O FOCO DESVIA: o charuto, o poder e o machismo à brasileira - Rede Gazeta de Comunicação

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Editorial | QUANDO O FOCO DESVIA: o charuto, o poder e o machismo à brasileira

Paula Pereira

Jornalista/ Programadora Visual/ Analista de Marketing

O Brasil tem dessas manias antigas, quase vício de família: basta uma mulher pisar firme em um espaço de poder para que surja alguém mais interessado no jeito dela do que no trabalho que realiza. Foi assim no episódio envolvendo Denise Abreu, ex-diretora da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac), durante a crise aérea que resultou na famigerada CPI do Apagão. Um caso antigo, é verdade, mas que segue atual — tão atual quanto a cena, ainda comum, do garçom com a bandeja de uísque que desvia das mesas ocupadas por mulheres em eventos formais. Pequenos gestos que dizem pouco sobre competência e muito sobre o machismo confortavelmente acomodado nas poltronas do debate público.

Naquele período, o cenário era de aperto danado: voos atrasados, aeroportos superlotados, passageiros dormindo no chão e um sentimento coletivo de abandono. Assuntos sérios não faltavam. Havia falhas estruturais, falta de investimentos, erros de gestão, responsabilidades políticas e riscos reais à segurança de quem voava. O enredo pedia profundidade, dados, cobranças técnicas. Mas, como acontece com frequência por aqui, parte da política e da mídia preferiu o atalho mais raso. O foco virou um charuto.

Denise Abreu foi lançada ao centro da fogueira por ter sido fotografada fumando um charuto em uma festa na Bahia. Um detalhe pequeno, quase nada, se estivesse nas mãos de um figurão de terno e gravata. Mas, como era uma mulher — e uma mulher em cargo alto — o gesto virou pecado capital. O charuto deixou de ser charuto e passou a simbolizar arrogância, deboche e descaso. Julgou-se o comportamento, não o sistema. A imagem, não a engrenagem que havia falhado.

Convém combinar o óbvio: quantos homens em posições de poder já foram vistos em festas, jantares caros ou eventos elegantes em meio a crises graves e passaram ilesos? Quantos charutos masculinos já foram tratados como sinal de sucesso, autoridade ou até charme? Quando a mão que segura o objeto é feminina, a régua sobe, o tom endurece e o julgamento vem carregado de moralismo.

A CPI, que deveria esclarecer o apagão, acabou também funcionando como tribunal de conduta. Denise Abreu foi cobrada não apenas por decisões administrativas, mas pela postura, pela imagem, pelo modo de falar — e até pelo jeito de fumar. É um roteiro conhecido: mulher que não baixa a cabeça, não pede desculpas por ocupar espaço e não se encaixa no figurino esperado paga um preço mais alto.

Nada disso significa blindar gestor público. Pelo contrário: crise grande exige explicação grande, transparência e responsabilidade. O problema começa quando o debate abandona os fatos e se agarra a símbolos fáceis, carregados de preconceito. Quando um charuto pesa mais que relatórios, dados e decisões estruturais, tem coisa errada nesse trem.

O episódio deixa uma lição daquelas que Minas costuma ensinar em silêncio: o machismo institucional não precisa gritar. Ele ironiza, faz piada, desvia o assunto e finge normalidade. Enquanto se discute o que uma mulher fuma em uma festa, deixa-se de discutir quem acendeu — ou deixou apagar — os verdadeiros apagões do país.

No fim das contas, a fumaça que mais atrapalhou a visão não saiu do charuto. Veio dessa cortina grossa de preconceito que insiste em encobrir o debate sério sempre que uma mulher resolve ocupar, sem pedir licença, o centro do poder.