Paula Pereira
Jornalista/ Programadora visual/ Analista de marketing
Eu cresci ouvindo a panela de pequi ferver.
O cheiro não anunciava apenas o almoço de domingo — anunciava pertencimento. Não tinha etiqueta gourmet, não tinha nutricionista explicando nada, mas a gente sabia que aquilo ali tinha uma força própria.
Lá no miolo do Norte de Minas e no sertão de Goiás, fruta boa não precisa de grife. Pequi não vem embrulhado em plástico ou marketing. Pequi chega avisando pelo olfato antes de chegar no prato, e já diz: “estou aqui para cuidar de você”
Agora, doutores de avental branco, lupa, pipeta e artigo publicado descobriram o que nós sempre soubemos sem doutorado nenhum: essa bolinha amarela pode ajudar os rins, reduzir o colesterol, aliviar inflamações e ainda oferecer ação antioxidante, graças à presença de vitamina E, β-caroteno e ácidos graxos essenciais. Estudos recentes apontam que compostos bioativos do pequi podem ajudar na proteção do tecido renal contra processos degenerativos, além de contribuir para a saúde cardiovascular.
Mas para nós, isso não é novidade. Minha avó já dizia: “menina, isso é saúde pura”. Hoje, nutricionistas falam a mesma coisa, só que com nomes técnicos, gráficos e tabelas. Até surge pequi em pó em laboratório, ciência traduzindo o saber ancestral para fórmulas que cabem em artigos acadêmicos.
É preciso, no entanto, ser honesto: fruta do Cerrado não é comprimido. Pequi não substitui receita médica nem protocolo clínico. É alimento. É cultura. É cuidado servido em colher.
E eu mesma sei, na pele, que há limites. Tem gente que não pode exagerar: o corpo não suporta tanto potássio, algumas doenças renais exigem restrição, há organismos que não digerem óleo todo dia na salada. Então, se for para usar, que seja com orientação médica ou nutricional — e sem exagero.
O mundo, no entanto, está chegando atrasado. Porque nós — nós daqui — já sabíamos pelo cheiro, pelo sabor, pelo cuidado de não morder o espinho.
Pequi é Cerrado.
Pequi é identidade.
Pequi é uma cura que começa no território.
Historicamente, o pequi é parte da sobrevivência e da cultura do povo do Cerrado. Sua colheita, preparação e consumo formam um conjunto de saberes transmitidos de geração em geração, integrando alimentação, medicina popular e rituais familiares. Antes de qualquer laboratório ou artigo científico, o Cerrado já reconhecia o valor da fruta. Ela carregava memória, pertencimento e cuidado.
Hoje, a ciência apenas confirma o que a tradição já dizia. Pesquisadores da Universidade Federal de Goiás e de outras instituições têm analisado os compostos bioativos do pequi, mostrando que ele pode ter papel preventivo em doenças renais, cardiovasculares e metabólicas. Mas o que os estudos não medem é o tempo que se passa em família, a paciência de tirar cada espinho, a conversa ao redor da mesa, tudo parte do efeito restaurador da fruta que vai além da bioquímica.
Se o Brasil quiser futuro, vai ter que voltar a ouvir esse chão, vai ter que respeitar o que as avós ensinaram sem citação bibliográfica, vai ter que entender que a medicina do amanhã é este encontro:
a ciência que confirma… e a tradição que nunca errou.
O pequi nos lembra que saúde, cultura e território caminham juntos. Que alimento é história e cuidado, e que o Cerrado não é apenas espaço geográfico, mas uma biblioteca viva de saberes sobre corpo, cura e vida. Talvez, se o mundo ouvir mais o cheiro do pequi, comece a aprender com quem já sabia.



