Paula Pereira
Jornalista/ Programadora visual/ Analista de marketing
Aprendi cedo a respeitar o pequi. Não foi por gosto, nem por conselho — foi a vontade de comer e a falta de conhecimento sobre o fruto cheiroso à minha frente. No quintal seco da casa de meu pai, em Grão Mogol, um erro de dente e a sentença: castigo certo. Minha mãe teve que tirar espinho por espinho da minha boca. Em meio à dor e ao grito, aprendi a respeitar o fruto.
A gente olhava com desconfiança. Pequeno, arredondado, cheiroso demais. Mas perigoso. A fruta tem espinho por dentro. E mesmo assim, aprendi a amar.
Hoje, faço arroz com pequi como quem prepara um prato requintado. Tenho meu jeito — não conto inteiro, mas digo que deixo o pequi quase desmanchando, sem perder a valentia. Tem quem só jogue no arroz, tem quem cozinhe demais, tem quem misture coisa que não deve. Eu não. Faço com paciência e pouca palavra. Deixo o cheiro subir, invadir os cômodos, despertar memória nos cantos da casa.
O povo do Norte de Minas sabe do que estou falando. Aqui, o pequi não é só fruto, é aviso de que o ano virou. Quando aparece na feira, redondo, verde queimado, a gente já sabe: o calor vai apertar mais um pouco, mas a comida vai ganhar gosto. Nas festas, nas cozinhas de fogão à lenha, ou mesmo numa terça-feira qualquer, ele reina.
Em Montes Claros e nas cidades do Norte de Minas, em cada canto de chão rachado onde o cerrado insiste em ser forte, o pequi é rei.
Ele é presença certa nas Festas de Agosto, quando a cidade se enfeita com fitas, tambores, fé e cansaço. Entre uma novena e um catopê, tem cheiro de galinhada, arroz com pequi, carne de lata. O povo dança, come e reza — tudo no mesmo passo. O fruto, mesmo fora da safra, aparece. Foi guardado a dedo, congelado em vasilhas, curado em garrafas, escondido em latas de óleo para resistir ao tempo. O sertanejo aprendeu a fazer durar o que ama.
E quando chega o Festival do Pequi, não é só comida: é declaração. A cidade se transforma em palco, feira, arraial. Cozinheiros, artistas, feirantes e violeiros se reúnem em torno do mesmo miolo dourado. O fruto que um dia foi desprezado por turistas, agora é estrela de evento. Tem oficina, tem receita nova, tem concurso de quem sabe mais do que os outros. Mas no fundo, é só o mesmo amor antigo ganhando palco.
Até na música sertaneja ele entrou. Não é raro ouvir o nome do pequi rimando com saudade, com viola, com mulher que foi embora. Virou metáfora de sertão. Fruto que arde, que marca, que perfuma. Quem canta pequi canta terra, canta ausência, canta raiz.
Dizem que Goiás quer tomar o mérito. Que lá também tem festa, tem receita, tem orgulho. Pode ter. Mas aqui, em Minas, o pequi é mais entranhado. Não está só no prato — está no sangue, na fala, na braveza do povo. O nome do time que a gente torce diz tudo: Pequi Atômico. Um time com nome de fruto espinhoso. Não é metáfora à toa.
A venda do pequi sustenta muita gente. Mulheres com as mãos tingidas de amarelo, homens de chapéu puxado colhendo no mato seco. As sementes são fervidas, moídas, guardadas. O óleo que sai dali não serve só pra cozinha — serve pra vida. Serve de remédio, de renda, de troca justa entre quem planta e quem come.
Mas o mato anda sumindo. O cerrado vai sendo trocado por pasto, por cerca, por fogo. E com ele, vai indo o pequi. Vai indo a festa, o cheiro, o sustento. É preciso parar. Olhar pra trás. Voltar pro gosto forte da terra. Proteger o que ainda dá fruto.
Pequi não nasce em qualquer canto. Não se planta como se planta milho. Ele precisa de tempo, de silêncio, de chão cansado.
Quem já mordeu o espinho do pequi sabe: a dor ensina.
E quem já cozinhou com ele, em panela de ferro, fogo brando, sabe que ali mora uma força antiga.
Não é só comida.
É memória.
É raiz.
É Minas.


