EDITORIAL | Origami de Dezembro: Quando a alma aprende a se dobrar sem quebrar - Rede Gazeta de Comunicação

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EDITORIAL | Origami de Dezembro: Quando a alma aprende a se dobrar sem quebrar

Paula Pereira

Jornalista | Programadora Visual | Analista de Marketing

No Norte de Minas, onde o vento conhece os nomes das ruas e o tempo ainda tem o costume de passar devagarinho, há histórias que não nascem prontas — amadurecem. São histórias que crescem como árvore de quintal, criando raiz funda antes de oferecer sombra. A trajetória de Gi Lages é dessas: feita de silêncio, persistência e palavra.

Em tempos de pressa crônica, imediatismos digitais e discursos que mal respiram antes de se desfazer, a poesia de Gi chega como quem pede licença. Não arromba portas, não faz alarde. Encosta na conversa, ajeita a cadeira e começa a falar com a delicadeza de quem sabe que o essencial não grita — permanece.

Giselda Ramos Lages, conhecida por todos como Gi Lages, construiu uma vida em dois territórios que, à primeira vista, poderiam parecer distantes. De um lado, o turismo, ofício de horizontes, passagens, destinos e encontros. De outro, a literatura, esse chão invisível onde se plantam sentimentos, memórias e ausências. Mas basta um olhar mais atento para perceber que ambos os caminhos compartilham uma mesma natureza: deslocamento.

Quem trabalha com viagens aprende cedo que partir não é apenas mudar de lugar — é mudar de estado. Quem escreve poesia sabe que verso nenhum nasce sem travessia. Assim, entre bilhetes emitidos e poemas guardados, Gi foi fazendo o que talvez sempre estivesse escrito em sua própria história: organizando o mundo externo enquanto escutava, em silêncio, o mundo interno.

A autora costuma dizer que não encontrou a poesia — foi encontrada por ela. Há, nessa afirmação, algo profundamente geraizeiro. No sertão, ninguém “descobre” certas coisas. Elas simplesmente chegam. Como chuva em tempo de estiagem. Como conselho de mãe. Como lembrança de pai.

Filha de Montes Claros, com raízes afetivas em Salinas e Minas Novas, Gi cresceu em uma família que ela define como serena. O pai, escritor, homem de calma quase pedagógica. A mãe, presença forte, dessas que sustentam a casa e o coração. Nesse ambiente, a palavra não era ornamento — era convivência.

Ainda menina, uma professora percebeu aquilo que o tempo confirmaria depois: “Você escreve diferente.” Diferente, aqui, não como exceção, mas como identidade. Há escritores que nascem da urgência. Outros nascem da escuta. Gi pertence à segunda linhagem — rara, resistente, necessária.

Os poemas vieram cedo, mas não vieram apressados. Foram sendo escritos, guardados, amadurecidos. Entre rotinas profissionais, compromissos e responsabilidades, a autora fez da noite um território criativo. Diante do computador, palavra por palavra, organizou blocos, estruturou partes, reuniu aquilo que durante anos existiu como fragmento de alma.

Não houve estalo. Houve construção.

O nascimento de Origami de Dezembro, publicado pela Editora Patuá, carrega justamente essa essência: nada nele é acidente. O título, metáfora central da obra, traduz com precisão o gesto poético da autora. Origami é dobradura. É transformação. É delicadeza que exige precisão. É fragilidade que encontra forma.

Dobrar sem rasgar. Transformar sem destruir.

Dezembro, mês carregado de simbolismos afetivos na vida da autora, torna-se paisagem emocional. O livro fala de amor, desamor, perdas, família, vivências, violência doméstica, doação de órgãos. Não há ali poesia de abstração distante, mas poesia de experiência. Versos que nascem da vida vivida, não da pose literária.

Gi escreve como quem conversa.

Sua poesia é acessível sem ser superficial, próxima sem ser simplista. Há densidade, mas há também fluidez. É poesia que cabe no leitor comum, que não exige iniciações acadêmicas para ser sentida. E talvez resida aí uma de suas maiores forças: a capacidade de emocionar sem hermetismo.

Num cenário em que parte da produção literária se fecha em códigos excessivamente internos, Gi Lages aposta na comunicação afetiva. Seus poemas não afastam — aproximam. Não intimidam — acolhem.

A obra se estrutura em partes que dialogam com diferentes dimensões do sentir. Em Amor e Suas Invenções Poéticas, o leitor encontra múltiplas faces do afeto: encontros, despedidas, silêncios, permanências. Em outras seções, surgem memórias, reflexões sociais e experiências que atravessam o cotidiano.

Há ainda textos que tocam em feridas coletivas, como a violência doméstica, demonstrando que poesia também é espaço de denúncia, consciência e resistência. Porque, no fundo, toda poesia que se compromete com a vida é também um gesto político — ainda que sussurrado.

Mas talvez o eixo mais delicado da obra esteja na presença dos pais. Não como simples homenagem, mas como permanência narrativa. Gi não escreve sobre eles — escreve com eles. A serenidade do pai, a potência da mãe, o amor que os unia: tudo se infiltra nos versos como herança invisível.

Há livros que nascem do desejo de dizer. Outros nascem da necessidade de lembrar. Origami de Dezembro pertence às duas naturezas.

O lançamento, concebido como festa e encontro, reafirma uma dimensão fundamental da literatura geraizeira: a palavra como convivência. Distante de solenidades rígidas, o evento assume o tom de celebração afetiva, reunindo amigos, artistas, escritores e leitores.

A participação de Guilherme Peixoto, com a arte do origami, amplia a metáfora central do livro. Dobraduras visuais dialogando com dobraduras emocionais. Forma e sentido caminhando juntos.

Em sua fala, Gi deixa ao leitor um recado simples e profundamente humano: não deixar de sonhar. E ler poesia.

Porque um livro de poesia — como bem lembra a autora — não tem fim. Não se consome. Não se esgota. Permanece. Pode ser aberto ao acaso, relido, redescoberto. Cada leitura inaugura uma nova experiência.

Num mundo saturado de ruídos, a poesia ainda resiste como espaço de pausa. E pausas, hoje, tornaram-se quase um ato de coragem.

Gi Lages surge, assim, como uma voz que reafirma algo que o sertão sempre soube: delicadeza não é fraqueza. Sensibilidade não é excesso. Lentidão não é atraso.

Há dobraduras que não quebram — reinventam.

E é justamente nesse gesto — silencioso, persistente, profundamente humano — que Origami de Dezembro encontra sua maior beleza.

Porque há livros que se leem.

E há livros que se sentem.

Este, definitivamente, pertence à segunda espécie.