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Editorial | O Velho Chico pede respeito

Paula Pereira

Jornalista/ Programadora Visual/ Analista de Marketing

No Norte de Minas, quando o Rio São Francisco cresce, ninguém fica indiferente. O povo geraizeiro conhece bem esse sinal da natureza. O Velho Chico não sobe à toa. Ele avisa, chama atenção, cobra cuidado. As cheias registradas nas últimas semanas em Minas Gerais, impulsionadas por chuvas intensas e persistentes, reacendem uma velha lição que o tempo insiste em ensinar: o rio é vivo, tem memória e exige respeito.

A elevação rápida do nível do São Francisco, que já ultrapassou cotas de inundação em municípios como Pirapora, não é apenas um dado técnico dos boletins oficiais. É fato sentido no dia a dia de quem vive às suas margens, de quem tira sustento da pesca, da vazante, do pequeno roçado plantado na beira do barranco. Quando a água avança, muda a rotina, impõe cuidado e, muitas vezes, medo. Mas também traz lembrança de tempos antigos, quando o rio enchia forte e garantia fartura no futuro.

O geraizeiro sabe que cheia não é só problema — é também sinal de vida. O São Francisco cheio recarrega lagoas, renova o solo, fortalece o ciclo natural que sustenta comunidades inteiras. O problema é quando o homem esquece disso e insiste em desafiar o curso da água, ocupando áreas que sempre foram do rio, derrubando matas ciliares, tratando o Velho Chico como obstáculo e não como parceiro.

Os episódios recentes, como o resgate de animais ilhados e os alertas emitidos pelas defesas civis, mostram que ainda reagimos mais do que prevenimos. É preciso ir além da emergência. Monitorar é importante, avisar também, mas planejar é essencial. Planejar o uso do solo, proteger as margens, ouvir quem mora ali há décadas e conhece cada mudança do rio pelo cheiro da água e pela cor da correnteza.

Outro ponto que não pode ser ignorado é que o que acontece em Minas ecoa rio abaixo. A cheia que nasce nas cabeceiras segue caminho, alcança a Bahia, influencia cidades, lavouras e vidas a centenas de quilômetros. O São Francisco não respeita divisas políticas; ele costura estados, histórias e destinos. Por isso, cuidar do rio em Minas é cuidar dele inteiro.

As previsões indicam que as chuvas podem continuar, mantendo os níveis elevados nos próximos dias. É hora de atenção, sim, mas também de reflexão. O Velho Chico está falando alto. Cabe ao poder público agir com responsabilidade, aos órgãos técnicos manter vigilância e à sociedade compreender que conviver com o rio exige humildade.

No sertão mineiro, o povo costuma dizer que “rio cheio ensina”. Que essa cheia ensine, mais uma vez, que desenvolvimento sem respeito à natureza cobra preço alto. E que o São Francisco, pai das águas e alma do sertão, merece cuidado hoje para continuar correndo amanhã.