Paula Pereira
Jornalista | Programadora Visual | Analista de Marketing
Há vozes que não se calam quando o corpo silencia. Elas ficam — ecoando nos cantos da memória, nas esquinas da cidade, no jeito de falar do povo. A partida de José Vicente Medeiros, o nosso Zé Vicente, é dessas que deixam um silêncio barulhento no Norte de Minas. Um silêncio que não é ausência, mas lembrança viva de uma existência inteira dedicada a comunicar, acolher e representar.
Falar de Zé Vicente é, para muitos de nós, falar de alguém que não estava distante, lá nos estúdios ou nos palanques. Ele era presença. Era daqueles que chamavam pelo nome, que escutavam com o olho e respondiam com o coração. Na labuta diária da imprensa, cruzamos caminhos — às vezes correndo contra o tempo, às vezes proseando sem pressa — e sempre ficava a sensação de estar diante de alguém que fazia do ofício uma extensão da própria vida.

“Gente da gente”. Não era só um bordão. Era um jeito de existir.
Nascido na poeira boa da Vereda do Ouro, criado no compasso do campo, Zé Vicente nunca se apartou das raízes. Mesmo quando o rádio o levou longe, quando a televisão ampliou sua presença — inclusive à frente de programa na TV Gazeta Norte Mineira —, e mesmo quando a política lhe deu cargo e responsabilidade, ele continuou sendo o homem simples que afinava a viola, que fazia do improviso poesia e da conversa, ponte. Seu percurso — do menino da roça ao comunicador respeitado, do artista popular ao homem público — não foi feito de atalhos, mas de estrada batida, dessas que a gente percorre com fé e persistência.
E como percorreu.
Foram mais de seis décadas de rádio, televisão, cultura e serviço público. Uma vida inteira em movimento, entre microfones, câmeras, palcos improvisados, caminhões com alto-falante cruzando estradas do sertão, gabinetes e plenários. Foi vereador, vice-prefeito, prefeito. Mas, antes de qualquer título, foi voz. Voz que informava, que animava, que defendia. Voz que também ganhou imagem na tela, sem nunca perder a essência de proximidade com o povo.
Na política, carregou o mesmo espírito da comunicação: proximidade. Nunca se apresentou como alguém acima, mas ao lado. Talvez por isso tenha dito, com a sabedoria de quem entende o valor das coisas, que não acumulou riqueza material — mas se fez rico de amizades. E quem conviveu sabe: era verdade.
A recente luta contra o aneurisma cerebral mostrou mais uma vez a força de um homem que sempre enfrentou a vida de frente. Resistiu o quanto pôde. E partiu como viveu: deixando história.
Também era fé. Daquelas que se colocam em movimento às quatro da manhã, em romaria, passo a passo, entre Montes Claros e Bocaiúva. Fé que não se exibia, mas se praticava. Fé de quem entende que caminhar junto é tão importante quanto chegar.
Hoje, o Norte de Minas se despede de um dos seus. A imprensa perde uma referência, a cultura perde um guardião, a política perde uma figura singular. Mas o povo — ah, o povo — guarda o que não se perde: a lembrança da voz, do riso, do aperto de mão, da palavra dita sem rodeio.
Fica o vazio. Fica a saudade. E fica, sobretudo, o exemplo.
Porque há homens que passam. E há homens que permanecem.
Zé Vicente permanece.



