EDITORIAL | O PERNILONGO CANTOR E A SAUDADE DO FUMACÊ - Rede Gazeta de Comunicação

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EDITORIAL | O PERNILONGO CANTOR E A SAUDADE DO FUMACÊ

Paula Pereira

Jornalista/ Programadora Visual/ Analista de Marketing

Ele chega sem ser convidado, não pede licença e, pior: anuncia o ataque. O mosquito da dengue — esse pernilongo desafinado, insistente e absolutamente inconveniente — virou personagem fixo do nosso cotidiano. Não importa se é dia ou noite, chuva ou sol, calor ou aquele mormaço que gruda na pele: ele está lá. Ou melhor, eles estão em toda parte.

Basta apagar a luz, deitar a cabeça no travesseiro e tentar dormir. Silêncio absoluto… até que surge a cantoria. Um zzzzzz fino, provocador, quase debochado, que parece dizer: “Boa noite não. Estou aqui.” Não morde de surpresa. Ele anuncia. Rodeia a orelha, passeia pelo braço, faz reconhecimento de área. Quando você bate palmas no ar, já era: missão cumprida para ele, derrota moral para você.

Nesta época do ano, o Aedes aegypti não é apenas um mosquito. É praticamente um fenômeno social. Está na rua, no quintal, no vaso de planta, na calha esquecida, na tampinha de garrafa abandonada. Multiplica-se com uma facilidade que faria inveja a qualquer empreendedor. Onde há um pouquinho de água parada, lá está ele, confiante, pronto para seguir sua carreira de vilão nacional.

E não é só a coceira que incomoda. A dengue, a zika e a chikungunya transformaram esse inseto minúsculo em uma ameaça grande, séria e persistente. Febre alta, dores no corpo, mal-estar e, em casos mais graves, riscos reais à vida. Por isso, entre uma ironia e outra, o alerta é coisa séria: não dá para subestimar o pernilongo cantor.

Os cuidados são conhecidos, repetidos e, ainda assim, muitas vezes ignorados. Eliminar água parada, virar garrafas, limpar calhas, tampar caixas-d’água, colocar areia nos pratos de plantas. São atitudes simples, quase banais, mas que fazem toda a diferença. O mosquito pode até ser persistente, mas não resiste a um quintal bem cuidado e a uma vizinhança consciente.

E, no meio dessa guerra silenciosa, surge um sentimento curioso: a saudade do fumacê. Aquele carro passando devagar pelas ruas, soltando uma nuvem branca que cheirava a “combate oficial”. Não era perfume, mas dava uma sensação de alívio coletivo. As pessoas saíam à porta, comentavam, respiravam fundo (talvez fundo demais) e acreditavam que, ao menos por alguns dias, dormiriam em paz.

Hoje, o fumacê aparece menos, e o mosquito parece ter ganhado mais coragem. Talvez por isso a nostalgia. Mas a verdade é que, com ou sem fumaça, a batalha começa dentro de casa. Não adianta reclamar do zumbido noturno se o criadouro está no próprio quintal, escondido atrás de um balde esquecido.

O pernilongo pode até cantar, provocar e atacar com aviso prévio. Mas nós temos algo mais forte: informação, responsabilidade e ação coletiva. Que ele continue pequeno — e que nossas atitudes sejam grandes o suficiente para calar, de vez, essa cantoria indesejada.