Paula Pereira
Jornalista/ Programadora visual/ Analista de marketing
Tem coisa que é mais que festa — é reza, é lembrança, é raiz. A 32ª Festa Nacional do Pequi chega de novo espalhando o cheiro do fruto rei por cada canto de Montes Claros. De 7 a 9 de novembro, o povo vai se achegando na Avenida Viriato Ribeiro, no Mercado Municipal e nos arredores do Parque Cândido Canela pra celebrar não só o pequi, mas tudo que o Cerrado tem de mais bonito: sua gente, seus sabores, suas histórias e suas resistências.
É o encontro do passado com o agora, da panela de barro com a banda de rock, do artesão com o chef, do violeiro com o artista plástico. É o jeito geraizeiro de existir virando espetáculo — com cheiro de pequi frito, som de viola e cor de buriti. A festa, que já se firmou como a maior celebração gastronômica do Norte de Minas, vem de cara nova: novo formato, novo endereço e novos temperos. Junto dela, chegam o Festival Sabores dos Gerais e o Festival Flor de Pequi, fazendo do evento uma grande homenagem à vida que brota do chão do sertão.
O Cerrado, esse mar de folhas secas e raízes fundas, ganha voz e corpo nas barracas, nos palcos, nas cozinhas de rua. A Orquestra de Violas, Pereira da Viola, Tuia e Guarabyra, Pedro Tommaso e tantos outros artistas dão o tom — um som que mistura poeira e poesia, saudade e invenção.
Pro prefeito Guilherme Guimarães, o evento é mais que entretenimento:
“Esse novo espaço vai mostrar nossas potencialidades, gerar desenvolvimento e confirmar Montes Claros como a capital nacional do pequi.”
Já a secretária de Cultura, Junia Velloso Rebello, fala bonito, dizendo que a festa é
“onde tradição e inovação dançam juntas.”
E é isso mesmo — o novo vem sem apagar o velho, feito fogo que esquenta o tacho, mas não queima a essência.
A ambientação inspirada no Cerrado promete ser um retrato vivo da natureza geraizeira. No Espaço Flor de Pequi, o público encontra comida boa, música e arte. Já o Ecossistema do Pequi convida o visitante a mergulhar nas histórias do fruto — do uso na medicina popular à preservação das espécies. E ainda tem a FARMAVERDE, projeto que cultiva plantas medicinais do SUS e mostra que saúde também brota da terra.
No Mercado Municipal, a “Casa da Cozinha Geraizeira” é o coração da memória. Lá, o cheiro de arroz com pequi se mistura com risada, prosa e sanfona. É o povo se vendo no espelho das próprias tradições — nas fotos de Faces do Mercado e nas modas do Encontro de Violeiros.
E se o pequi é o astro, o Cerrado é o palco. O Festival Sabores dos Gerais celebra os outros frutos que dividem o território com o pequizeiro — umbu, buriti, mangaba, baru, tamarindo — todos ganhando seu lugar na mesa e no coração. Com apoio do Sebrae e do Idene, o projeto une quem planta, quem cozinha e quem saboreia — é economia criativa com gosto de futuro e cheiro de mato.
No fim das contas, a Festa Nacional do Pequi é isso: uma celebração daquilo que o povo do Norte de Minas tem de mais verdadeiro — a força de se reconhecer no que é seu. É o sabor da terra virando arte, o som do sertão ecoando entre tambores e violas, o Cerrado mostrando que, mesmo em tempo de pressa e concreto, ainda tem canto, tem comida, tem coração que bate no ritmo do pequi.
E quem chega por lá, entre uma colherada e outra, descobre o segredo que o povo já sabe faz tempo: o pequi é mais que comida — é símbolo, é saudade, é identidade.
É o jeito geraizeiro de dizer — com sabor, com som e com alma —
que a vida floresce mais bonita quando se lembra de onde veio.


