Paula Pereira
Jornalista/ Programadora visual/ Analista de marketing
Cheguei a escrever — tempos atrás — sobre o desencontro entre o trabalhador disponível e o empregador desesperado por preencher vagas. Era, então, uma questão de ajustes, de ponte quebrada entre oferta e demanda. Mas hoje, como diria Cássia Eller, “o mundo está ao contrário e ninguém reparou.” A pergunta que ecoa é simples e urgente: o que está acontecendo?
Vivemos tempos em que os sinais trocados já não surpreendem. Mudanças se impõem por todos os lados: os “ventos de agosto” agora sopram em outubro, deslocando certezas, arrastando estruturas. O que era sólido se desmancha não no ar, mas na confusão institucional, econômica e até moral.
O Supremo Tribunal Federal interfere, cada vez mais, no espaço do Legislativo. O Congresso responde ora com silêncio, ora com bravatas. E o cidadão? Assiste a esse cabo de guerra entre poderes que deveriam ser harmônicos, equilibrados, respeitosos de seus limites constitucionais.
No cotidiano, uma liberdade difusa paira no ar — não aquela que se ergue como direito, mas a que se disfarça em permissividade, em impunidade, em discursos que se vendem como libertadores enquanto minam o próprio tecido democrático. Liberdade de expressão virou escudo para agressões, fake news, discursos de ódio — e também para censura seletiva, dependendo de quem fala e do que é dito.
Enquanto isso, a economia dá sinais estranhos: há vagas sem candidatos, há candidatos sem qualificação, há empresas que não conseguem contratar — não por falta de gente, mas por falta de conexão real com a realidade do mercado, da educação, da vida concreta nas cidades.
O país vive um desencontro generalizado. O GPS institucional parece quebrado. Ninguém mais sabe ao certo quem decide, quem cumpre, quem representa. Há um mal-estar difuso, um ruído de fundo que se intensifica, mas ainda não virou grito.
Este é um momento de alerta. De perguntar, sem medo: quem está conduzindo esse trem? E para onde vamos?
Porque, ao que tudo indica, o mundo virou — mas poucos pararam para perceber.


