Paula Pereira
Jornalista/ Programadora visual/ Analista de marketing
Há ausências que não gritam, apenas sussurram nos cantos da alma. A do pai é uma delas. Perder o pai é perder uma sombra protetora, uma voz que ampara, um olhar que, mesmo em silêncio, dizia: “você está segura”. Desde então, o mundo parece mais largo, mais frio — e nós, mulheres que crescemos sob esse vazio, passamos boa parte da vida tentando reencontrar aquele sentimento de segurança que um dia morou no colo paterno.
Há quem busque esse abrigo no amor. Quem enxergue no marido, no companheiro, ou até em amigos, a promessa de cuidado e proteção que a vida levou cedo demais. Mas o destino, caprichoso e cruel, nem sempre devolve o mesmo tipo de amor. Às vezes, o que encontramos é o oposto: braços que apertam demais, vozes que mandam calar, afetos que ferem em vez de curar. E é nesses instantes que a ausência do pai pesa como uma pedra no peito — porque é dele que vem o modelo de como o amor deveria ser: firme, mas terno; forte, mas justo.
O pai é o primeiro homem a quem uma mulher confia o coração. Quando essa presença se vai, cedo ou tarde, a vida se torna uma travessia de reconhecimento — entre o que é cuidado e o que é controle, entre o que é amor e o que é posse. Aprendemos, às vezes com dor, a discernir o toque que protege do toque que domina.
Mas mesmo na ausência, o pai continua sendo farol. Ele se faz presente nas escolhas que fazemos, nos medos que vencemos, e até nas lágrimas que escondemos. Há algo do pai em cada tentativa de recomeço, em cada vez que erguemos o rosto e dizemos: “eu consigo”.
A mulher que perdeu o pai cedo aprende a ser seu próprio abrigo. Aprende a caminhar sozinha, a se defender, a desconfiar — e, paradoxalmente, a amar com mais força. Porque sabe o valor raro da presença, o peso sagrado da palavra e a beleza simples de um gesto de cuidado.
A importância do pai não está apenas na lembrança — está no modo como ele nos ensina a reconhecer o que merecemos. E talvez o maior legado de um pai seja este: fazer com que a filha, mesmo diante do abandono ou da traição, nunca esqueça o que é ser amada com verdade.
— Redação (por alguém que ainda sente falta do abraço que ensinava o que era segurança)


