EDITORIAL | MERCADO MUNICIPAL: O coração que bate cedo - Rede Gazeta de Comunicação

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EDITORIAL | MERCADO MUNICIPAL: O coração que bate cedo

Paula Pereira

Jornalista/ Programadora Visual/ Analista de Marketing

O dia mal clareou e o Mercado Municipal de Montes Claros já respira fundo. Antes mesmo do sol firmar presença no céu quente do Norte de Minas, o coração da cidade bate apressado sob o telhado antigo. As primeiras vozes rompem o silêncio da madrugada, misturadas ao ranger das portas de ferro, ao arrastar das caixas de madeira e ao estalo seco das lonas sendo abertas. É ali, naquele ritual diário, que Montes Claros desperta para a vida.

Criado para abastecer e dar destino à produção regional, o mercado nasceu da necessidade e cresceu junto com a cidade. Seu nome diz tudo: municipal, público, do povo. Foi pensado para reunir quem planta, cria, colhe, produz e vende, ligando a roça ao balcão, o saber antigo ao consumo cotidiano. Ao atravessar décadas, resistiu às mudanças do comércio moderno sem perder a essência. No mercado, o tempo não corre — caminha. E caminha no passo manso da tradição.

Logo cedo, as bancas se transformam em retratos vivos do sertão. Mangas graúdas, bananas-da-terra, mamão, laranjas, limões, melancias e abacaxis dividem espaço com abóboras, quiabo, maxixe, jiló e raízes que sustentam gerações. É nesse cenário que José Antônio Alves trabalha, oferecendo frutas tropicais e sazonais, frescas, coloridas, vindas diretamente dos produtores da região. Cada caixa descarregada carrega mais que alimento: carrega o esforço de quem vive da terra.

Os temperos têm território próprio e alma forte. Alhos trançados, cebolas, pimentas de todas as qualidades, cominho, colorau, açafrão-da-terra, ervas secas e frescas perfumam os corredores. Na banca de Maria do Carmo, a Carminha, o mercado ganha cheiro de cozinha acesa. Pimentas, especiarias, pequi e flores formam um espetáculo de cores e aromas que convida o visitante a caminhar devagar, sem pressa, como quem respeita o lugar.

Na ala dos pescados, a tradição fala alto. Clarisse Xavier Gomes trabalha ali há mais de 40 anos, vendendo peixes frescos e salgados. Cresceu no ramo, viu o mercado mudar, mas nunca perder a alma. Seu balcão é procurado por quem sabe reconhecer o valor do peixe bem tratado e da confiança construída no fio dos anos.

Confiança também define a trajetória de José Pereira dos Santos, feirante há mais de meio século. Ele comercializa produtos de pequenos produtores de Montes Claros e região, funcionando como elo entre o campo e a cidade. Sua banca é retrato fiel de uma economia que se sustenta na parceria, no olho no olho e na palavra empenhada.

Entre uma compra e outra, o mercado vira sala de estar. Amigos param para colocar o papo em dia, trocar notícia, comentar a chuva, a colheita e o time do coração. Caminham sem pressa, porque ali comprar é também estar. É encontro, é convivência, é pertencimento.

Os sons compõem uma trilha própria: o pregão dos feirantes, a risada solta, o baque das facas na madeira, o tilintar das moedas. Em algum canto, a moda de viola escapa de um rádio antigo, trazendo letras de saudade, estrada e vida simples, embalando o ritmo do mercado como se fosse uma oração cantada.

O setor de carnes guarda símbolos fortes da identidade regional. A carne de sol, bem curada, segue o processo tradicional: sal na medida certa e tempo exato para se transformar no sabor que define o Norte de Minas. Cortes suínos — costela, lombo, pernil, toucinho e pele para torresmo — completam as sacolas dos fregueses, garantindo presença certa nas mesas das casas.

É na relação direta com o cliente que muitos feirantes constroem sua história. Valmir Pereira Alves, há cerca de 40 anos no mercado, acredita que o segredo está no bom atendimento e na qualidade do que se vende. Cliente bem recebido volta — e ainda traz outro. Assim se forma uma rede de confiança que atravessa gerações.

As lojas de produtos naturais ampliam a diversidade: castanhas, sementes, farinhas integrais, frutas secas, temperos e condimentos variados. Fernanda mantém viva a loja que pertenceu à mãe, há mais de 40 anos no mercado, oferecendo desde produtos naturais até itens para quem busca uma vida mais saudável. É tradição que se renova sem perder o chão.

O mercado de flores acrescenta beleza ao concreto. Cores vivas e perfumes suaves lembram que aquele espaço também é feito de encanto, cuidado e delicadeza.

Doces de leite, goiabadas, cristalizados, cachaças da região, mel, polpas de frutas e frango caipira revelam a riqueza da produção local. Cada banca conta uma história, cada conversa reforça o laço entre quem produz e quem consome.

Nas hortaliças, Neuza Amaral garante a qualidade dos produtos orgânicos. Luci mantém viva a culinária tradicional com temperos, farinhas, biscoitos e beiju. Tudo feito no compasso da roça.

O mercado também é feito de quem compra. Generson Patrício volta sempre para garantir o queijo e a cachaça da banca 18. O estudante Pedro Henrique Azedo não passa sem o pastel e o cafezinho da Pastelaria Uai, comandada por Rosane, ponto de parada obrigatório. Maria Helena, aposentada, percorre os corredores toda semana para fazer a feira, manter a rotina e encontrar conhecidos. Porque no mercado, comprar é também conviver.

Mais que um espaço de comércio, o Mercado Municipal de Montes Claros é memória viva, economia pulsante e identidade coletiva. É onde a cidade se reconhece no espelho da própria história. Onde o passado conversa com o presente e o futuro aprende a respeitar as raízes. Todos os dias, sob o telhado antigo, o Norte de Minas reafirma quem é — com trabalho, cultura, afeto e resistência.