Paula Pereira
Jornalista | Programadora Visual | Analista de Marketing
Entre calores, insônia, mudanças de humor e sintomas que aparecem sem avisar, vou descobrindo uma coisa curiosa: talvez a grande diferença entre a adolescência e a menopausa não esteja no corpo, mas na mulher que aprendeu a observá-lo
Tenho 48 anos e, ultimamente, tenho a impressão de que meu corpo resolveu fazer uma espécie de retrospectiva da minha adolescência.
Só que, desta vez, sem caderno de confidências, sem mãe perguntando o que aconteceu, sem amigas tentando descobrir quem era o menino da vez. O enredo é outro. Tem queimação na mama, noites em que o sono simplesmente desaparece, mudanças de humor que chegam sem bater na porta, calores que parecem ter algum compromisso pessoal com o meu sofrimento e, vez ou outra, aquela sensação maravilhosa de: “Quem sou eu mesmo? E onde foi parar o fio da meada?”. Rsrs.
É como se os hormônios tivessem decidido me devolver à adolescência, mas com uma diferença fundamental: eu não sou mais adolescente.
E talvez seja justamente aí que esteja a parte mais interessante dessa história.
Na adolescência, tudo era muito intenso. O corpo mudava e a gente mal entendia o que estava acontecendo. Um dia parecia que éramos crianças; no outro, esperavam que tivéssemos comportamento de adulto. O humor mudava, as emoções eram enormes, o mundo parecia barulhento demais e qualquer problema tinha proporção de catástrofe.
E ninguém explicava muita coisa.
A gente simplesmente atravessava.
Hoje, olhando para trás, começo a pensar no quanto fomos cobrados por comportamentos que talvez nem tivéssemos condições de compreender. Como exigir equilíbrio de alguém que estava vivendo uma revolução física, hormonal, emocional e social sem manual de instruções?
Agora, décadas depois, meu corpo resolveu promover uma nova revolução.
A diferença é que minha cabeça está em outro lugar.
Se na adolescência eu era puro tumulto, hoje sou muito mais analítica. Observo. Comparo. Questiono. Tento entender. Percebo meu corpo antes de simplesmente entrar em guerra com ele, ou contra o mundo.
Quando aparece um sintoma novo, ainda existe aquele primeiro pensamento dramático: “Pronto. Estou morrendo”.
Depois vem a segunda etapa: pesquisar, observar, conversar, respirar e descobrir que, muitas vezes, aquilo pode estar relacionado à própria transição hormonal.
E aí vem a terceira etapa: “Ah, então era isso!”.
É quase um curso intensivo sobre o próprio corpo.
Talvez essa seja uma das grandes diferenças entre aquela menina e esta mulher. Hoje eu tenho mais domínio sobre mim.
Não significa que eu controle tudo. Longe disso. Há dias em que o calor chega sem pedir licença e acaba com qualquer dignidade. Há noites em que o relógio avança e o sono não vem. Há momentos em que o humor muda e eu mesma penso: “Calma, criatura!”.
Mas existe uma consciência que não existia antes.
Hoje consigo perceber a mudança acontecendo.
E, principalmente, consigo tentar cuidar dela.
Alimentação, atividade física, descanso, atenção ao que meu corpo pede. Pequenas escolhas que ajudam a atravessar os dias com um pouco mais de equilíbrio. Não é uma fórmula mágica, nem significa que todos os sintomas desapareçam. É simplesmente a sensação de que, desta vez, eu participo da conversa.
E isso me faz pensar em uma coisa que me incomoda: por que falamos tão pouco sobre isso?
Eu sempre fui uma leitora ávida. Li sobre tanta coisa desde muito nova. Histórias de amor, tragédias, aventuras, doenças, guerras, relações humanas, amadurecimento. Mas não me lembro de ter encontrado, na mesma proporção, conversas honestas sobre o que uma menina sentiria quando seu corpo começasse a mudar na adolescência.
Muito menos sobre o que uma mulher sentiria décadas depois, quando esse mesmo corpo começasse a mudar novamente.
Talvez fosse tabu.
Talvez ainda seja.
Na consulta ginecológica, muitas vezes, a conversa termina com um tranquilizador “vai ficar tudo bem”. E, claro, ouvir que vai ficar tudo bem é bom. Só que, às vezes, eu queria mais.
Queria saber o que poderia acontecer.
Queria ouvir que determinados sintomas podem aparecer. Queria saber que existem possibilidades de tratamento, acompanhamento, terapia, mudanças de hábitos. Queria entender melhor as alternativas antes de começar a imaginar que há alguma coisa muito errada comigo.
E existe ainda a reposição hormonal, assunto que continua cercado de dúvidas, avaliações individuais, indicações e contraindicações. Não deveria ser uma conversa de respostas prontas, mas também não deveria ser uma conversa evitada.
Informação também é cuidado.
Porque existe uma diferença enorme entre dizer para uma mulher “isso é normal” e explicar por que aquilo pode acontecer, o que observar e quando procurar ajuda.
Ainda estou naquela fase meio obscura em que acordo com um sintoma novo e, depois do susto inicial, descubro que ele pode fazer parte da menopausa.
É quase uma caça ao tesouro hormonal.
Só que ninguém contou onde estava o mapa.
E sigo assim, entre uma descoberta e outra, tentando entender o que me espera aos 50 enquanto ainda descubro quem estou sendo aos 48.
Talvez a menopausa esteja me ensinando uma coisa que a adolescência não conseguiu: o corpo pode ser turbulento sem que a gente precise ser.
Hoje, quando sinto meu corpo mudar, consigo parar, observar e tentar entender. Na adolescência, eu simplesmente sentia.
E talvez por isso eu esteja olhando para aquela menina com mais carinho.
Ela não sabia o que fazer com tanta emoção. Não tinha repertório, experiência ou maturidade. Estava aprendendo a morar em um corpo que mudava diariamente e ainda precisava descobrir quem era.
Hoje, eu também estou aprendendo a morar em um corpo que muda.
Mas agora tenho ferramentas que ela não tinha.
Tenho experiência. Tenho consciência. Tenho mais capacidade de análise. Tenho escolhas. Tenho uma cabeça que consegue dizer ao corpo: “Calma. Vamos entender isso primeiro”.
E talvez seja essa a verdadeira maturidade.
Não é deixar de sentir.
É aprender a compreender o que se sente.
Aos 48, meu corpo ainda faz barulho. Às vezes grita, sua, esquenta, não dorme e me prega peças.
Mas minha cabeça, finalmente, aprendeu a escutá-lo.
E, entre um calorão e outro, vou descobrindo que envelhecer talvez seja justamente isso: continuar se descobrindo dentro do mesmo corpo, só que com mais consciência de quem está morando nele.


