Paula Pereira
Jornalista/ Programadora Visual/ Analista de Marketing
Ser jornalista nunca foi tarefa simples — e não digo isso de forma abstrata, mas a partir da vivência. Da experiência de quem já sentiu o peso da profissão nos ombros, já foi questionada, desacreditada e, muitas vezes, colocada na defensiva apenas por exercer o ofício de informar. Há momentos históricos em que esse peso parece maior, quase esmagador. E estamos vivendo exatamente um deles.
Em meio a ataques constantes à imprensa, à desinformação usada como estratégia e à confusão proposital entre opinião, boato e fato, o jornalismo passou a ser julgado diariamente no tribunal das redes sociais. Muitas vezes, sem direito à defesa. Isso cansa. Machuca. E obriga a refletir sobre o sentido da profissão.
Nesse contexto, torna-se inevitável pensar na formação do jornalista e, sobretudo, no papel das aulas de ética — aquelas que muitos subestimam na graduação, mas que fazem toda a diferença quando a realidade bate à porta. Ética nunca foi matéria acessória. Nunca foi “teoria demais”. Ética é o que sustenta o profissional quando a pressão aperta, quando o caminho fácil aparece e quando fazer o certo parece custar caro demais.
As faculdades não formam apenas pessoas que escrevem bem ou dominam ferramentas digitais — ou, ao menos, não deveriam. Formam mediadores da realidade. Ensinar ética é ensinar responsabilidade social, compromisso com a verdade, respeito às fontes e, principalmente, noção de consequência. Toda informação publicada gera impacto. Ignorar isso não é apenas um erro técnico; é uma falha ética.
Talvez por isso doa tanto ouvir, repetidas vezes, que “o diploma não vale nada”. Dói porque não é o papel que perdeu valor, mas um ambiente que passou a premiar o improviso, a gritaria, o engajamento vazio e a opinião travestida de notícia. Dói ver colegas perdidos, pressionados por cliques, likes e algoritmos, cada vez mais distantes daquilo que um dia aprenderam — ou deveriam ter aprendido — sobre apuração, responsabilidade e limite.
As críticas à profissão doem. Doem quando vêm carregadas de generalizações injustas. Doem quando colocam no mesmo balaio o jornalismo sério e o oportunismo disfarçado de comunicação. Doem porque ignoram o esforço diário de quem ainda apura, checa, ouve todos os lados e resiste à tentação do atalho. Doem, sobretudo, porque atingem uma profissão essencial à democracia — e que muitos só percebem o valor quando ela falta.
Volto, então, à memória das redações cheias: a gritaria, os palavrões, as madrugadas esperando a capa ficar pronta, a matéria quente tentando virar furo de reportagem, a ansiedade para ver o jornal impresso no dia seguinte. Havia ali empolgação, propósito e um senso coletivo de responsabilidade. Não era romantização; era compromisso com o registro do presente.
Talvez por isso emocione tanto ver, em documentários e arquivos históricos, o quanto a imprensa informa, registra e eterniza momentos. O jornalismo grava na história passagens, recortes e versões do mundo que ajudam a sociedade a se reconhecer no tempo. No fim das contas, é isso que dá sentido ao ofício.
Mas é preciso honestidade: parte da crise também nasce dentro da própria profissão. Quando a ética vira detalhe, quando a formação é tratada como mera formalidade e quando o diploma se transforma apenas em um papel sem lastro em valores, a descredibilização encontra terreno fértil. Não basta dizer que é jornalista; é preciso exercer o jornalismo todos os dias.
Defender as aulas de ética é, portanto, defender a sobrevivência da profissão. É reafirmar que jornalismo não é opinião solta, não é militância disfarçada, não é publicidade camuflada. Jornalismo é método, responsabilidade e compromisso público. Vai errar — porque é humano —, mas precisa errar com honestidade, corrigir com transparência e aprender com rigor.
Em tempos de tanto ruído, o jornalismo precisa reaprender a ouvir. Ouvir a sociedade, ouvir suas próprias falhas e ouvir aquilo que a formação ética sempre ensinou. Porque sem credibilidade não existe profissão. E sem ética, definitivamente, não existe jornalismo. O diploma só “não vale nada” quando se esquece o que ele representa. Quando se lembra, ele continua sendo um pacto com a verdade — mesmo que manter esse pacto custe caro.


