EDITORIAL | Heranças silenciosas: A Leitura que nos forma - Rede Gazeta de Comunicação

PUBLICIDADE

EDITORIAL | Heranças silenciosas: A Leitura que nos forma

Paula Pereira

Jornalista/ Programadora visual/ Analista de marketing

Às vezes me pego pensando em como o mundo mudou — rápido demais, barulhento demais. Vivemos cercados de telas, notificações, distrações. E, nesse turbilhão de informação passageira, algo essencial vai se apagando devagar: o silêncio da leitura, aquele que ensina mais do que mil vozes.

Foi minha mãe quem me deu o primeiro livro que realmente me transformou. A Bailarina de Auschwitz, de Edith Eva Eger. Lembro do peso delicado que aquele título carregava, sem saber que, ao abrir aquelas páginas, também estaria abrindo um pedaço novo de mim. Edith sobreviveu ao horror. Mas mais do que isso: ela aprendeu a viver depois dele. Seu testemunho não é apenas uma memória do Holocausto, é uma dança com a dor — e com a esperança. Levei apenas três dias para terminar o livro. Mas há passagens que ainda hoje ecoam em mim, nos meus silêncios, nos momentos em que quase esqueço do que sou capaz de suportar.

Essa experiência não surgiu do nada. Foi construída, com delicadeza, desde cedo. Crescer cercado de livros é crescer cercado de mundos. Ver os pais lendo, contando histórias, apontando letras com o dedo como quem aponta para um mistério sagrado… Tudo isso molda mais do que vocabulário. Forma caráter, imaginação, desejo de saber.

Quando uma criança se apaixona pelos livros, ela carrega esse amor pela vida inteira. E então, um dia, ela descobre autores clássicos como Clarice Lispector, Graciliano Ramos, Machado de Assis. Ou Edith Eger. E percebe que cada escritor carrega um pedaço de sua terra, de sua época, das dores e belezas de seu povo. Ler, nesse ponto, não é mais apenas um prazer — é um ato de compreensão do outro e de si mesmo.

Ler nos ensina a ver o mundo com olhos menos apressados. Nos torna mais humanos. E quanto mais mergulhamos na literatura, mais percebemos como cada livro carrega em si uma geografia, uma história, uma verdade. Entender as influências regionais desses autores é também reconhecer de onde viemos — e até onde ainda podemos ir.

No fundo, ensinar um filho a ler não é o suficiente. É preciso ensiná-lo a amar a leitura. E isso não se faz com obrigação, mas com presença. Com o livro na cabeceira, com a história antes de dormir, com o silêncio compartilhado entre páginas. É nesse gesto, aparentemente pequeno, que se planta um futuro inteiro.

Talvez o maior presente que meus pais me deram não tenha sido algo comprado, mas algo vivido. A herança silenciosa de um lar onde os livros sempre estiveram por perto. E por isso, mesmo nos dias mais escuros, sigo voltando a eles — para encontrar forças, perguntas, respostas e, às vezes, só para lembrar quem sou.