EDITORIAL — ENTRE 94, 2002 E AS TERÇAS-FEIRA: A magia do futebol que não envelhece - Rede Gazeta de Comunicação

PUBLICIDADE

EDITORIAL — ENTRE 94, 2002 E AS TERÇAS-FEIRA: A magia do futebol que não envelhece

Paula Pereira

Jornalista/ Programadora Visual/ Analista de Marketing

Houve um tempo — e bota tempo nisso — em que a gente se reunia em frente à televisão como quem vai pra missa de festa, coração batendo no compasso da narração, torcendo pra seleção devolver ao Brasil aquela alegria que só o futebol sabe dar. A geração que viu 1994 e 2002 cintilarem como faróis no meio da estrada tem o privilégio de carregar no peito um brilho que não se apaga. Em 94, o orgulho voltou a bater no peito, meio tímido, mas cheio de coragem. Em 2002, a magia ressurgiu como um rio cheio depois das primeiras chuvas, lembrando ao mundo que a amarelinha, quando veste talento e teimosia, vira uma asa aberta sobre a bola.

E no meio desse mosaico dourado, vemos Romário, o Baixinho marrento que decidia jogo com a frieza de quem pede pão na padaria. Bebeto, com aquela dancinha que virou abraço eterno. Dunga, que nunca aceitou o rótulo que tentaram colar nele e levantou a taça como quem levanta a própria história. E o Taffarel, ah, o Taffarel! Que segurou penaltis como quem segura o destino pelo colarinho. Aquela seleção, feita de suor, nervo e fé, reconstruiu o elo do Brasil com seu próprio espelho.

Oito anos depois, do outro lado do planeta, lá veio o time que devolveu o sorriso largo. Ronaldo Fenômeno renascido das dores, Rivaldo cirúrgico e calado, Ronaldinho sorrindo enquanto driblava meio mundo. Um trio que parecia inventado num sonho. Somados ao paredão Marcos, ao raio Cafu, ao foguete Roberto Carlos, ao vigor de Lúcio e Roque Júnior, eles não jogaram apenas uma Copa — jogaram poesia em campo aberto.

Se 94 foi a lição de que vencer também é suor e disciplina, 2002 foi a certeza de que o talento brasileiro sempre encontra caminho pra florescer. Entre força e fantasia, essas duas Copas moldaram a alma de quem ama o futebol de verdade.

Mas sabe por quê fui longe? Porque no fundo, o que eu queria mesmo era ver essa turma ainda jogando. Ver Romário pedindo bola no pé numa “super sênior”, Ronaldo fazendo tabela no campo society, Ronaldinho driblando a própria sombra numa hiper sênior qualquer. Ah, meu amigo… que sonho bom é esse de imaginar nossos craques transformados nos meus próprios heróis de pelada.

E já que falei neles, agora eu desço do pedestal das Copas do Mundo e entro no templo sagrado das minhas tardes: a pelada de terça do Max Min Clube. Aqui o gramado é o mundo, a chuteira é a coragem e o diploma de craque se conquista na raça, no sorriso e no apelido que carrega história. Aqui o talento não se aposenta; ele só ganha cabelos brancos. A turma é 50+, 60+, 70+ e tem uns valentes chegando aos 90 como se nada fosse. E poxa vida, aqui não tem firula: tem pedalada de respeito, tem drible rápido que deixa a marcação olhando pro horizonte, tem drible de pombo, tem finta seca, triangulação, lançamento longo, virada de bola, entrada diagonal, bicicleta, chute colocado, ginga, cavadinha e gargalhada atrás de gargalhada.

E quando digo craque, não é modo de falar: é reverência. Porque nenhum estádio no mundo tem elenco tão cheio de história quanto esse. É uma seleção inteira de apelidos que valem mais que qualquer narração de Galvão Bueno. Escuta só:

João de Deus, Juber, Zé Chop, Tanque de Guerra, Caninha, Deputado, Cido Riba, Maurício, Valdemir Deca, João Hélcio, Tio Gê, Lotinha Lolô, Toninho Paraguai, Itamar Chuta Canela, Ladislau Lau, Ronaldo Barros Paquito, Laécio Guedes Pé Loro, Reinaldo Pilão de Minas, Arthur, Manoel Bel, Melo Nelim, Maurilio, Comandante Jorge, Romeu, Arnaldo Morcegão, José Cido Cemig, Ray, Maurinho, Nono Zangado, Amilton, Nassau Fotógrafo, Esquerdinha, Palito, Luiz Itaú, Hermes Pereira, Wander Souza, Marcelo Pereira “deixa que eu chuto”, Douglas, Dazim, Luiz Cláudio, Tony Moc, Jorgim Garoto, Carlucio, José Guido, Sergim da Auto Escola, João Pança, Cambuy Manga Rosa, Carlos Paulista, Zé Maria Nenén, Eduardo Dú Preto, Janaúba, Lú Piau, Marcos Vinícios Pageú, Luiz Cláudio Codevasf, Jario Garapa, Ricardo Imperador, Valdir Cara de Boneca, Paulo Gazeta, Maguila desabafa, Magu Capim Santo, Toninho(matsurfo), Caze, Tiririca, Guila, Veinho, Mika, Ronaldao, Valdemir Dario, Mao de alface, Xandinho, Nego Rosa, Boizao, Leo Caverna, Goiabinha, Mamae, Lorinha, Van Cabelo. Se deixei passar algum nome, a culpa é de João Neto, Paulo Juiz e Paulo Gazeta.

E não vou deixar escapar aqui, alguns que não estão na pela de terça, mas devem ser lembrados como nomes a serem reverenciados, como Nilsinho Beijoqueiro, que por amor ao futebol jogou até seu ultimo suspiro em campo. Dr. Luiz Mana, que por causa do trabalho, não joga na terça, mas se faz atuante sempre nas pelas em todos os clubes da Cidade. Wagner Batista Veim, José Geraldo Gê da Casa das Antenas e Charles Caleira Chacha.

Diz pra mim se isso não é uma convocação digna de Copa do Mundo? Mas é não. É maior. Porque aqui ninguém joga pelo dinheiro, nem pela fama. Joga porque ama. Joga porque o coração ainda pulsa do jeito que pulsava quando viu Romário levantar a arquibancada e Ronaldo silenciar o planeta. Joga porque o futebol, esse danado, é o último pedaço da infância que ninguém consegue arrancar.

A pelada de terça do Max Min não é apenas um jogo. É memória viva, é encontro de gerações, é prova de que talento não tem prazo de validade. E quem tem o privilégio de ver essa seleção entrar em campo sabe: ali, no meio das risadas, dos apelidos e da bola que nunca perde a majestade, mora tudo o que o futebol brasileiro um dia foi — e tudo o que ainda pode ser.