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EDITORIAL | Doar órgãos é escolher a vida

Paula Pereira

Jornalista/ Programadora Visual/ Analista de Marketing

Há decisões que não cabem apenas no campo individual. Elas atravessam famílias, hospitais, cidades inteiras — e, em alguns casos, definem quem terá a chance de continuar vivendo. A doação de órgãos é uma dessas escolhas. Silenciosa, delicada e, muitas vezes, evitada em conversas de família, ela segue sendo um dos maiores desafios da saúde pública no Brasil.

Dados do Ministério da Saúde mostram que mais de 40 mil pessoas aguardam hoje na fila por um transplante no país. São crianças, jovens, adultos e idosos que dependem de um único gesto para seguir em frente. Um gesto que, paradoxalmente, nasce da dor da perda, mas se transforma em esperança para muitos outros. Um único doador pode salvar ou melhorar a vida de até oito pessoas, por meio da doação de órgãos como coração, fígado, rins, pulmões e pâncreas, além de beneficiar dezenas com tecidos, como córneas.

Apesar disso, o Brasil ainda enfrenta um obstáculo decisivo: a negativa familiar. Mesmo com avanços no sistema de transplantes — um dos maiores e mais complexos do mundo, realizado majoritariamente pelo SUS —, cerca de 40% das famílias recusam a doação no momento da abordagem. Na maioria das vezes, essa recusa não vem da falta de solidariedade, mas da ausência de diálogo prévio. Não se doa porque não se sabe qual era a vontade de quem partiu.

É aí que mora a urgência do debate. Falar sobre doação de órgãos não atrai tragédias, como muitos acreditam. Ao contrário: prepara consciências, reduz conflitos e salva vidas. Quando a família conhece o desejo do ente querido, a decisão, mesmo dolorosa, torna-se mais clara, mais humana e menos solitária.

Outro dado que preocupa é o tempo de espera. Pacientes que precisam de um rim, por exemplo, podem aguardar anos em diálise, submetidos a tratamentos desgastantes que comprometem a qualidade de vida. Em casos de transplante de coração ou fígado, a espera pode significar uma corrida contra o relógio, em que dias — ou horas — fazem toda a diferença.

Doar órgãos não é apenas um ato médico. É um posicionamento ético, social e profundamente humano. É reconhecer que, mesmo na finitude, ainda é possível gerar continuidade. Em um país onde milhares morrem todos os anos à espera de um transplante, a indiferença custa caro demais.

Por isso, a pergunta precisa ser feita agora, em vida, à mesa de casa, entre conversas simples e sinceras: qual é a sua vontade? Comunicar esse desejo à família é tão importante quanto tê-lo. A decisão final, pela lei brasileira, ainda cabe aos familiares — e eles precisam estar preparados.

Falar sobre doação de órgãos é falar de responsabilidade coletiva. É olhar para além do próprio medo e entender que a morte, quando inevitável, pode não ser em vão. Em tempos de tantas perdas, escolher a vida do outro é, talvez, o maior gesto de humanidade que ainda nos resta.