Paula Pereira
Jornalista/ Programadora Visual/ Analista de Marketing
Tem coisa que a gente não explica, só sente. E é desse jeito mesmo que a Galeria Godofredo Guedes anda chamando o povo: não apenas pra olhar quadros, mas pra prosear com a própria memória, com a força e a delicadeza da arte feita por mulheres que carregam no pincel os caminhos do sertão, das ruas de Montes Claros e das inquietações que cada uma traz no peito.

Até o dia 30 de dezembro, o Centro Cultural Hermes de Paula, esse casarão que guarda a alma viva da cidade, virou terreiro de sensibilidade com a exposição “O que Permanece”, obra do coletivo UMA — União das Mulheres Artistas. Ali, de graça e de portas escancaradas das 8 às 19 horas, o público encontra mais que telas: encontra histórias.
São 15 artistas expondo seus mundos, cada uma a seu modo, misturando técnica e sentimento como quem mistura tempero em panela de família antiga: acrílica, óleo, aquarela, colagem, bordado, desenho… Tudo convivendo no mesmo espaço, igual gente que aprende a respeitar diferença. Cada obra é um pedaço de estrada, um segredo contado baixinho, um grito preso que encontrou saída.
E Catarina Machado, que coordena a mostra, sabe bem o peso desse encontro. Como ela mesma diz, não é só arte por arte. É representatividade, é disputa de espaço, é rebeldia suave entrando em instituição pública pela porta da frente. É a ocupação simbólica de um lugar que durante tanto tempo ignorou o que tantas mulheres tinham a dizer — e finalmente começa a ouvir.
Não à toa, a exposição se junta à Semana de Ativismo pelo Fim da Violência Contra as Mulheres. Porque, no fim das contas, arte é jeito de gritar sem perder a ternura. É ponte entre dor e cura. É conversa que mexe com a alma e convida o outro a enxergar o mundo com mais cuidado.
“O que Permanece”, como o nome já entrega, fala do que fica mesmo quando tanta coisa passa: a memória, o gesto, a coragem de criar. Num tempo em que tudo corre rápido demais, a mostra planta sua semente devagarinho, firmando raiz no coração de quem visita. E faz mais: fortalece vínculos, constrói redes, aproxima artista e público como num reencontro de velha amizade.
Montes Claros tem sofrido, nos últimos tempos, com a pressa que engole o sossego das praças e o silêncio das tardes. Mas iniciativas como essa lembram que a cultura é a grande guardiã da nossa identidade. Que o Centro Cultural Hermes de Paula continua sendo farol. Que arte boa, feita com verdade, sempre encontra caminho.
E que ninguém se engane: esse projeto não é só bonito. É necessário. É urgente. É político no melhor sentido da palavra — aquele que devolve humanidade ao cotidiano.
Que o povo vá, veja, sinta. Que as escolas levem seus meninos e meninas. Que a cidade ocupe seus espaços de cultura como quem reivindica o direito de existir com plenitude.
Porque, no sertão, a gente sabe: o que permanece não é só o que resiste ao tempo.
É o que transforma. É o que toca.
É o que, depois de visto, não deixa ninguém ser o mesmo.


