Paula Pereira
Jornalista/ Programadora Visual/ Analista de Marketing
Montes Claros vive mais um capítulo preocupante da escalada dos crimes digitais no Brasil. A mais nova modalidade de estelionato, denunciada pela Polícia Civil de Minas Gerais, ultrapassa o simples envio de mensagens falsas ou ligações suspeitas: agora, os criminosos montam um verdadeiro “teatro virtual”, simulando audiências judiciais por vídeo para enganar vítimas e induzi-las a realizar pagamentos imediatos via PIX.
Somente nesta semana, três casos foram relatados no Norte de Minas, mas o número real tende a ser maior. O constrangimento, o medo e a vergonha ainda silenciam muitas vítimas. O alerta, portanto, não é apenas policial — é social, institucional e coletivo.
O que mais assusta nesse novo golpe não é apenas o prejuízo financeiro, mas o grau de sofisticação. Os estelionatários se aproveitam de informações reais de processos judiciais, acessadas de forma ilícita ou por meio de consultas públicas, e constroem uma narrativa convincente. Há roteiro, figurino, cenário e até linguagem técnica. Tudo cuidadosamente planejado para criar uma falsa sensação de legitimidade.
O uso de plataformas de videoconferência, fundos que imitam salas de tribunais, bandeiras oficiais e supostos “magistrados” de terno transforma o crime em uma encenação perigosa. Diante desse contexto, não é razoável culpar a vítima. Qualquer cidadão, diante da autoridade simbólica da Justiça, pode ser levado ao erro.
O golpe se ancora em dois sentimentos humanos universais: urgência e esperança. Urgência para resolver um processo, liberar um valor, evitar um problema maior. Esperança de finalmente receber um dinheiro aguardado há meses ou anos. Essa combinação é explosiva — e os criminosos sabem disso.
Ainda mais grave é a tentativa de captura de biometria facial, como relatado por uma das vítimas. Ao pedir que a pessoa olhe fixamente para a câmera e apresente documentos, os criminosos buscam burlar sistemas de segurança bancária. Trata-se de um salto perigoso: o golpe deixa de ser apenas financeiro e passa a ameaçar a identidade digital do cidadão.
Em um mundo cada vez mais dependente de reconhecimento facial para acessar contas, assinar contratos e validar transações, a captura indevida de imagens representa um risco de longo prazo, com consequências que podem se estender por meses ou até anos.
É preciso reafirmar, com todas as letras: o Poder Judiciário não solicita pagamentos via PIX em audiências, virtuais ou presenciais. Custas judiciais seguem ritos formais, com guias oficiais emitidas pelos próprios sistemas dos tribunais. Não há atalhos, improvisos ou “taxas de urgência” cobradas por videochamada.
Audiências oficiais seguem protocolos claros, utilizam plataformas institucionais e são comunicadas por canais formais, geralmente com e-mails terminados em .jus.br. Qualquer desvio disso deve ser tratado como suspeito.
Diante desse cenário, a prevenção passa, inevitavelmente, pela informação qualificada. Consultar o advogado de confiança, desconfiar de contatos inesperados, verificar registros profissionais e nunca agir sob pressão são atitudes que podem evitar prejuízos irreparáveis.
Mas o desafio não é apenas individual. É necessário que instituições públicas, entidades de classe, imprensa e sistema de Justiça intensifiquem campanhas educativas permanentes. O crime evolui rapidamente; a resposta da sociedade precisa acompanhar esse ritmo.
O golpe da “audiência virtual” é um sinal claro de que o crime organizado também se digitalizou, profissionalizou e se adaptou aos novos tempos. Ignorar esse movimento é abrir espaço para que mais cidadãos sejam lesados.
Que este alerta sirva não apenas como notícia, mas como chamado à vigilância permanente. Em 2026, desconfiar deixou de ser excesso de cautela — passou a ser um ato de autoproteção.
Se houver dúvida, pare, confirme, questione. Na era digital, a pressa é a maior aliada do golpe.


