PAULA PEREIRA
Jornalista/ Analista de marketing/ Programadora visual
O sertão arde novamente. O que já se tornou um triste e recorrente cenário nos meses mais secos do ano se intensifica neste setembro de 2025: vastas áreas do Norte de Minas, especialmente nos entornos de Montes Claros e nas regiões do Alto Rio Pardo e do Vale do Jequitinhonha, enfrentam uma escalada alarmante de queimadas. A fumaça paira sobre o céu azul, as cinzas cobrem pastagens e lavouras, e o ar torna-se quase irrespirável. O retrato é de devastação, mas também de alerta e, principalmente, de urgência política.
A seca prolongada que atinge a região já era prevista por especialistas em clima. A escassez de chuvas, agravada pelos efeitos das mudanças climáticas e pelo manejo inadequado do solo, criou o ambiente ideal para o avanço do fogo – seja por causas naturais ou por ação humana, intencional ou negligente. O número de focos de incêndio detectados por satélites no Norte de Minas já ultrapassou, neste mês, os registros de anos anteriores, colocando o território no mapa da emergência ambiental nacional.
Mas a pergunta que ecoa entre os moradores, produtores rurais, ambientalistas e servidores públicos é direta: onde está a resposta efetiva do poder público? Ainda que haja esforços em andamento, a sensação predominante é de que as ações de enfrentamento ainda não estão à altura da gravidade da situação.
Em nível regional, é preciso reconhecer o empenho de diversas prefeituras e lideranças locais que, mesmo com recursos escassos, têm mobilizado brigadas voluntárias, solicitado apoio ao Corpo de Bombeiros e decretado situação de emergência em municípios atingidos. Além disso, parlamentares da região — a exemplo de deputados estaduais e federais — têm levado aos gabinetes da capital mineira e de Brasília pedidos formais de socorro, buscando o envio de aeronaves, equipes de combate e repasses financeiros para ações emergenciais.
O próprio Governo de Minas já sinalizou, ainda que timidamente, a possibilidade de ampliar o apoio técnico e logístico aos municípios mais afetados. Mas essas respostas precisam sair do papel com agilidade e articulação institucional, sob pena de se perderem em meio à burocracia enquanto a floresta, os campos e a vida rural continuam a queimar.
O que se cobra não é apenas a presença simbólica dos entes governamentais, mas uma política de enfrentamento robusta, permanente e preventiva, que vá além do apagar incêndios pontuais. Falta ainda um plano regional articulado de educação ambiental, reflorestamento de áreas degradadas, capacitação de brigadas comunitárias e fiscalização rigorosa das queimadas ilegais, inclusive nas divisas de propriedades rurais.
A situação atual também escancara a fragilidade da estrutura de combate ao fogo. Em muitas cidades menores, os equipamentos são precários, os servidores sobrecarregados e as equipes insuficientes. O clamor por um consórcio regional de resposta às queimadas, envolvendo prefeituras, Estado e União, torna-se cada vez mais necessário — não apenas para mitigar os danos, mas para planejar o futuro da convivência com o semiárido de forma sustentável.
Se a seca é um fenômeno natural em regiões como o Norte de Minas, os incêndios descontrolados são, em sua maioria, fruto da omissão, da imprudência e da ausência de políticas públicas eficazes. É inadmissível que, em pleno 2025, o sertanejo continue sendo deixado à própria sorte diante do fogo, da fome no campo e da perda de safras inteiras por falta de água.
A cada hectare destruído, queima-se não apenas o solo, mas também o direito à vida digna no campo, o sustento das famílias e o equilíbrio ambiental que afeta a todos — também quem vive nas cidades. Por isso, a resposta não pode ser apenas emergencial: precisa ser estrutural, intergovernamental e planejada.
A sociedade civil, por sua vez, tem dado exemplos de solidariedade e mobilização. Grupos de voluntários, ONGs ambientais e associações de produtores têm atuado com criatividade e coragem para conter o avanço do fogo e proteger comunidades inteiras. Mas essa rede de apoio precisa ser reconhecida, valorizada e, principalmente, amparada pelo Estado com recursos e suporte técnico.
O que está em jogo é mais do que a paisagem: é o futuro de uma região inteira. Um futuro que depende, agora, do compromisso real — e não apenas retórico — de nossos representantes políticos. Não é mais tempo de discursos: é hora de ação coordenada, rápida e transparente.
Se quisermos que o verde volte a florescer após as cinzas, será preciso plantar hoje sementes de responsabilidade, planejamento e vontade política.


