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EDITORIAL | A geografia do sagrado e a força invisível que sustenta o mundo - Rede Gazeta de Comunicação

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EDITORIAL | A geografia do sagrado e a força invisível que sustenta o mundo

Paula Pereira

Jornalista | Programadora Visual | Analista de Marketing

Há uma ironia monumental na história da fé ocidental. Um homem nasceu, pregou o amor ao próximo e transformou a história a partir das margens poeirentas da Galileia, sob as vistas de um Império Romano ocupante. Dois milênios depois, os herdeiros do império que o crucificaram ergueram no coração de Roma a sede da sua maior instituição religiosa, ornada em mármore e ouro. Enquanto isso, o chão exato onde Jesus andou, os mares em que navegou e as vilas onde ensinou não conheceram a paz: viraram ruínas arqueológicas, fronteiras militarizadas e palcos de guerras infindáveis. É o sarcasmo do tempo: a mensagem de amor virou império no Ocidente, enquanto a sua própria manjedoura continua em chamas.

Contudo, por trás da geopolítica e das grandes narrativas imperiais, há uma verdade ainda mais silenciosa e profunda. Sem em nada diminuir a centralidade de Jesus, a história da salvação revela que o primeiro refúgio do amor divino não foi um templo de pedra, mas o colo de uma mulher. Maria foi o verdadeiro esteio terrestre do Salvador: a jovem da Galileia que sustentou, cuidou, protegeu e acompanhou cada passo do Filho até a cruz — enfrentando a rejeição, o perigo e a dor do luto sob a opressão de seu tempo.

A trajetória de Maria reflete a própria essência do feminino ao longo dos séculos. Hoje, milênios depois, o cenário das mulheres pouco mudou em sua estrutura de sacrifício: continuam sendo a espinha dorsal da sociedade, enfrentando duplas ou triplas jornadas de trabalho exaustivas, frequentemente invisibilizadas, subvalorizadas e subjugadas por estruturas patriarcais. Mais do que a falta de reconhecimento econômico e social, o corpo e a existência feminina ainda são alvos de uma violência diária e estarrecedora.

Se Roma ergueu seus tronos sobre o poder, foram as mulheres — a começar pela mãe da Galileia — que sustentaram o amor nas trincheiras da vida real. O verdadeiro sagrado não reside na imponência dos impérios que guerreiam, mas na força bravia das mulheres que, mesmo sob o peso do mundo e das violências de cada época, insistem em cuidar, resistir e fazer nascer a esperança.