Paula Pereira
Jornalista/ Programadora visual/ Analista de marketing
Aqui no Norte de Minas, a gente tem uma relação quase íntima com a chuva. Quando ela resolve dar as caras, parece até visita importante chegando no portão — a gente corre pra olhar o céu, comenta com o vizinho, manda áudio no grupo da família: “Ô gente, tá chovendo aqui!”. E ri, porque tem hora que a chuva chega brincando com a nossa cara — cai, faz barulho, levanta cheiro de terra… e quando a gente vai ver? Nem molhou direito o chão.
Eu mesmo, esses dias, fui pra porta admirar o “pé d’água” chegando. Relâmpago cortando o céu, vento arrepiando o corpo. Pensei: “Agora vai!”. Pois foi nada. Uma chuvinha que lavou mais a poeira do ar do que da terra. Deu aquela refrescada boa, tirou o calor que tava judiando até da paciência… mas as barragens continuam magras, e o sertão ainda espera a chuva de verdade — aquela forte, grossa, que bate na telha e faz barulho de promessa cumprida.
A gente até acha graça. Porque o sertanejo aprendeu a rir das coisas antes que elas riam da gente. E essa chuvinha marrenta, que vem mas não se deita no chão, faz parte da nossa rotina. Uma espécie de esperança ensaiada, treino do céu pra quando resolver mandar água pra valer.
Mas, no meio dessa pequena alegria molhada, fica a preocupação grande. A terra pede socorro. As cisternas, reservatórios e rios esperam por dias melhores. Não é só sobre refrescar o corpo — é sobre garantir a vida. É sobre o feijão que vai nascer, sobre o gado que precisa de pasto, sobre a torneira da casa que a gente quer ver sempre correndo clara.
E aí a gente mistura fé com teimosia — porque é assim que o povo Norte Mineiro vive. Olhando pro céu, agradecendo até pelo chuvisco que quase não molha o chão e, no fundo, guardando a certeza de que a chuva grande ainda vem. Porque aqui ninguém desiste. A gente espera, cuida da água que tem, conversa com o tempo e, quando a nuvem engrossa no horizonte, já vai preparando o sorriso.
Até lá, seguimos assim: rindo da chuva que ri da gente — mas mantendo viva a esperança de que, muito em breve, será a vez dela descer séria, farta e generosa. E aí sim, o sertão vai molhar até a alma.


