Paula Pereira
Jornalista/ Programadora visual/ Analista de marketing
Tem sabores, sô, que nem dá pra explicar. Eles chegam de mansinho, no cheiro que o vento traz, invadem o coração antes mesmo da gente provar, e ficam grudados na alma feito poeira da estrada de terra batida depois da chuva. A comida de boteco aqui do Norte de Minas é assim: não é só pra encher o bucho — é pra abraçar o espírito, pra fazer o peito se encher de saudade boa.
E no meio desse cantinho quente de Minas, Montes Claros desponta como a capital do tempero e do afeto. Aqui, boteco não é só aquele petisco jogado no balcão não — é raiz fincada no chão, é o calor da gente servido no prato de alumínio ou no tabuleiro de madeira riscado pelo tempo. O montes-clarense é bem servido, isso é verdade, de casa de beira de estrada àqueles barzinhos chiques que inventam moda. Tem um quê de brasilidade misturado com aquela mineiridade que a gente não aprende nos livros, só vivendo mesmo.
No Bar da Lora, dentro do tradicional Max Min Clube, a parada é certa pra quem quer sentir o sabor da luta e da resistência no jeito simples e forte de fazer comida. Lá, a dobradinha e a rabada são como poesia em forma de prato — fortes, cheias de história, com aquele sabor de quem veio de longe e não esqueceu de onde veio. Comida feita pra gente com raiz, que encara o garfo e a faca com a mesma reverência de quem escuta um causinho contado no balcão.
E tem também o Villa Espetaria, que não fica atrás não! Participou do concurso Comida di Buteco e trouxe uma joia preciosa: o Bolinho de cupim com catupiry. Ah, meu amigo, esse bolinho é abraço que aquece o coração. Crocante por fora, macio por dentro, com aquele gostinho da roça que só quem nasceu aqui entende. É invenção que nasce da criatividade simples, daquele jeito de fazer comida com alma.
Montes Claros hoje é um celeiro de barzinhos que celebram a vida. Dos mais simples — onde a mandioca chega quente e o torresmo estala — aos mais estilosos, com seus pratos repaginados e drinques que são um espetáculo. Em cada cantinho, no bar de bairro com copo americano ou no gastrobar chique, tem uma coisa em comum: comida boa tem história. E se não tiver, a gente inventa, cria, improvisa — que é assim no sertão, onde a arte nasce da necessidade e do coração.
Aqui, no sertão mineiro, o improviso vira arte, a escassez vira fartura de sabor. O Buteco não é só lugar de comer, não. É extensão da casa, palco de encontros, canto das despedidas e lar da vida simples que a gente vive em voz alta — entre um brinde, uma prosa e uma pratada farta.
Em tempos em que tudo é rápido e sem alma, o Norte de Minas ainda cozinha devagar, deixando a comida pegar o tempo certo. Porque aqui, sô, sabor é sentimento, e cozinhar é falar uma língua que passa de mão em mão, de mãe pra filho, de pai pra neto.
A gente tem que valorizar essa tradição, aplaudir esses bares que resistem, que inovam sem perder a raiz, que fazem farinha, carne e queijo virarem poema na boca da gente. Que fazem da comida um ato de amor, um jeito de dizer “tô aqui, pertinho de você”.
No fim das contas, o que a gente come no Norte de Minas não é só o que está no prato. Tá no jeito de servir, no olhar que acolhe, na paciência de esperar, no prazer de dividir. E isso, felizmente, Montes Claros tem de sobra.


