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ECONOMIA | Mercado reage à eleição com dólar abaixo de R$ 5 - Rede Gazeta de Comunicação

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ECONOMIA | Mercado reage à eleição com dólar abaixo de R$ 5

Primeiro turno provoca forte valorização dos ativos brasileiros nesta segunda-feira; dólar recua mais de 4%, Ibovespa rompe os 200 mil pontos e juros futuros despencam, enquanto preço dos alimentos ainda não sente o efeito da eleição

O mercado financeiro brasileiro abriu a semana em forte movimento de alta depois do resultado do primeiro turno das eleições presidenciais. Nesta segunda-feira (5), primeiro pregão após a votação de domingo (4), o dólar caiu mais de 4%, o Ibovespa avançou com força e os juros futuros recuaram em torno de 100 pontos-base nos contratos mais longos.

A reação veio depois de Flávio Bolsonaro (PL) terminar o primeiro turno à frente de Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Os dois disputarão o segundo turno em 25 de outubro.

A diferença entre o que aconteceu no mercado e o que ainda é expectativa precisa ser destacada: os números desta segunda-feira representam a primeira reação dos investidores ao resultado eleitoral, e não o comportamento definitivo dos ativos para todo o segundo turno ou para o próximo governo.

Dólar cai mais de 4% e volta para baixo de R$ 5

O movimento mais rápido ocorreu no câmbio.

Às 9h19 desta segunda-feira, o dólar à vista recuava 4,65%, para R$ 4,9746. Na sexta-feira (2), último pregão antes da eleição, a moeda havia encerrado o dia em R$ 5,2173.

A queda foi uma reação direta ao resultado do primeiro turno. O desempenho de Flávio Bolsonaro ficou acima das expectativas de pesquisas que apontavam Lula na liderança, provocando uma mudança imediata nas posições dos investidores.

A valorização do real, entretanto, não significa que o dólar permanecerá abaixo de R$ 5.

O segundo turno ainda será disputado em 25 de outubro, e pesquisas, alianças, declarações dos candidatos e propostas econômicas podem provocar novas oscilações até lá.

Bolsa dispara e supera os 200 mil pontos

Na Bolsa, a reação foi ainda mais forte.

O Ibovespa futuro chegou a subir mais de 8% nos primeiros negócios desta segunda-feira. Às 9h05, o contrato avançava 8,43%, aos 209.280 pontos.

No mercado à vista, o Ibovespa também rompeu a marca histórica dos 200 mil pontos durante a manhã, chegando a uma máxima de 207.437 pontos, antes de reduzir parte dos ganhos. A Folha registrou alta de 4,9%, aos 201.536 pontos, em determinado momento da manhã.

A diferença entre os números ocorre porque o mercado estava em forte oscilação e as cotações foram registradas em horários diferentes.

No exterior, o movimento também foi expressivo. O ETF MSCI Brasil chegou a subir mais de 16%, segundo a Reuters, enquanto ações brasileiras negociadas nos Estados Unidos acompanhavam a valorização.

Juros futuros despencam

Outro reflexo importante apareceu no mercado de juros.

As taxas dos contratos de Depósitos Interfinanceiros abriram a sessão com quedas próximas de 100 pontos-base nos vencimentos mais longos.

A explicação está na mudança das expectativas dos investidores em relação à política econômica.

Uma eventual percepção de menor risco fiscal tende a reduzir o prêmio exigido pelos investidores nos títulos brasileiros. Com isso, as taxas futuras podem cair.

Esse movimento, porém, não significa que a Selic ou os juros cobrados dos consumidores tenham caído 1 ponto percentual nesta segunda-feira. Trata-se do mercado futuro antecipando um possível cenário econômico.

O próprio Boletim Focus divulgado nesta segunda-feira mostra que o mercado ainda projeta inflação de 5,01% para 2026, acima do teto da meta, enquanto mantém expectativa de redução da Selic para 13,5% em novembro.

Ou seja: há forte reação positiva no mercado, mas o cenário inflacionário continua sendo um problema.

Bancos estão entre os papéis mais procurados

A expectativa de juros futuros menores favoreceu especialmente empresas sensíveis ao custo do dinheiro.

Bancos brasileiros negociados no exterior apresentaram fortes altas antes da abertura da B3. Itaú, Bradesco, Nubank e Inter apareceram entre os destaques da reação internacional.

O raciocínio dos investidores é que uma eventual redução do prêmio de risco e dos juros de longo prazo pode melhorar as condições de crédito e atividade econômica.

Mas novamente há uma diferença entre expectativa de mercado e economia real.

A queda dos juros futuros não significa que um consumidor que procure financiamento nesta segunda-feira encontrará imediatamente uma taxa menor no banco.

Petrobras: alta não pode ser colocada toda na conta da eleição

A Petrobras exige uma correção importante na leitura dos acontecimentos.

A companhia chegou ao recorde de R$ 700,08 bilhões em valor de mercado na sexta-feira (2), antes da votação, depois de anunciar uma nova descoberta de petróleo no poço Morpho, na Margem Equatorial, na costa do Amapá.

Naquele pregão, as ações preferenciais subiram 2,81% e as ordinárias, 3,25%, acrescentando R$ 20,9 bilhões ao valor de mercado da empresa.

Portanto, esse recorde não foi causado pelo resultado eleitoral de domingo.

A Petrobras também participa da reação positiva desta segunda-feira, mas a valorização da companhia precisa ser analisada separadamente, porque existe um fator empresarial relevante anterior à eleição: a descoberta de petróleo e a perspectiva de expansão da produção.

Bitcoin não acompanha a disparada brasileira

O Bitcoin apresentou um comportamento muito diferente.

Enquanto o Ibovespa e o real reagiram fortemente ao resultado eleitoral brasileiro, a criptomoeda permaneceu próxima da faixa de US$ 86 mil, com oscilação muito mais moderada.

Isso acontece porque o Bitcoin é um ativo global. Seu preço responde muito mais ao fluxo internacional de capitais, juros americanos, liquidez mundial, ETFs e comportamento do dólar no exterior do que ao resultado de uma eleição presidencial brasileira.

Assim, não há base para atribuir à eleição brasileira a movimentação global do Bitcoin nesta segunda-feira.

E o preço dos alimentos?

É aqui que a reação financeira encontra seu limite.

A eleição ainda não provocou uma mudança mensurável nos preços dos alimentos nesta segunda-feira.

A queda do dólar pode, caso permaneça, reduzir ao longo do tempo o custo de determinados produtos e insumos importados. Fertilizantes, máquinas, componentes, combustíveis e algumas commodities são influenciados pelo câmbio.

Mas existe uma distância grande entre a cotação do dólar e o preço na prateleira.

A alimentação tem sua própria dinâmica, determinada por produção, clima, estoques, frete, custos de energia, oferta e demanda e margens de comercialização.

O dado mais recente disponível antes da eleição já mostrava essa dinâmica. O IPCA-15 de setembro apontou alta de 0,38% na alimentação no domicílio, depois de dois meses de queda, com pressão de itens como tomate, arroz e carnes.

Portanto, seria incorreto afirmar que o dólar caiu nesta segunda-feira e, por consequência, o supermercado já ficou mais barato.

Isso ainda não aconteceu.

Para o produtor rural, o efeito pode ser diferente

O câmbio também produz efeitos opostos dentro do agronegócio.

Um real mais valorizado pode reduzir o custo, em reais, de determinados insumos importados. Mas pode diminuir a receita dos exportadores brasileiros, porque cada dólar recebido pela venda de soja, café, carne e outras commodities passa a valer menos em moeda brasileira.

Por isso, mesmo uma valorização persistente do real não representa automaticamente redução dos preços dos alimentos.

É necessário observar como produtores, indústria, atacado e varejo vão absorver a mudança.

O mercado está olhando para o segundo turno

O movimento desta segunda-feira deve ser entendido como uma reprecificação imediata das expectativas.

Investidores estão tentando antecipar como poderá ser a política econômica do próximo governo, especialmente em relação às contas públicas, gastos, impostos, privatizações, juros e dívida.

A Reuters registrou que a forte valorização do real e dos ativos brasileiros veio acompanhada da expectativa de investidores em relação a uma agenda econômica considerada mais favorável ao mercado caso Flávio Bolsonaro avance para a Presidência.

Isso, entretanto, ainda está no campo das expectativas.

A eleição presidencial terá segundo turno em 25 de outubro. Até lá, o mercado poderá reagir novamente a pesquisas, alianças, debates, propostas e declarações dos candidatos.

O que mudou — e o que ainda não mudou

A fotografia desta segunda-feira é clara:

Mudou imediatamente:

dólar, que caiu mais de 4% e voltou para abaixo de R$ 5;

Ibovespa, que superou os 200 mil pontos durante a manhã;

juros futuros, com quedas próximas de 100 pontos-base nos vencimentos mais longos;

ações brasileiras negociadas no exterior, com forte valorização;

percepção de risco dos investidores em relação aos ativos brasileiros.

Ainda não mudou imediatamente:

preço do arroz no supermercado;

preço da carne;

preço do café;

preço do feijão;

custo do crédito para o consumidor;

inflação oficial.

E há uma ressalva importante: o recorde recente da Petrobras aconteceu antes da eleição e esteve ligado principalmente à descoberta de petróleo no Amapá, não ao resultado das urnas.

Da Bolsa para o carrinho

A segunda-feira deixou uma diferença curiosa entre o mercado financeiro e a economia do cotidiano.

Na Bolsa, bilhões de reais mudaram de valor em questão de minutos. No câmbio, o real ganhou força quase imediatamente. Nos juros futuros, investidores já começaram a apostar em um cenário diferente para os próximos anos.

No supermercado, porém, a história é outra.

A Bolsa pode reagir em segundos. O preço da comida precisa atravessar uma cadeia inteira antes de chegar ao consumidor.

Por enquanto, portanto, a eleição produziu uma forte reação financeira, mas ainda não uma mudança no custo de vida.

O mercado já está fazendo contas para 2027. O consumidor, enquanto isso, continua fazendo contas para fechar o mês.