Montes Claros será palco, hoje, dia 30 de julho, da aguardada estreia do documentário “Cavalhadas”, obra que resgata um dos mais emblemáticos folguedos da cultura popular com raízes profundas na tradição portuguesa. Com exibição marcada para as 18h30 no Ibicinemas, no Shopping Ibituruna, o filme convida o público a mergulhar em um passado riquíssimo de simbologias, religiosidade e celebrações cênicas. A entrada é gratuita.
O documentário, com duração de 59 minutos e 48 segundos, representa um esforço coletivo de reconstrução histórica e cultural de um espetáculo que há décadas marcou a vida de Montes Claros: a Cavalhada encenada no Centenário da cidade, em 3 de julho de 1957. Inspiradas nas batalhas medievais entre cristãos e mouros, as Cavalhadas remontam ao século XII, na Europa, tendo sido trazidas ao Brasil no final do século XVI pelos colonizadores portugueses. No Brasil, essas encenações passaram a ser incorporadas como festas populares com forte apelo religioso e teatral, envolvendo cavalos, figurinos imponentes e a representação do confronto simbólico entre fé e infidelidade.
A produção presta uma tocante homenagem ao seresteiro e produtor rural Nivaldo Maciel (1920–2009), que interpretou um dos reis mouros na encenação de 1957 e é reconhecido como figura emblemática das manifestações culturais montes-clarenses. Também fundador da Sociedade Rural, Nivaldo foi um entusiasta das tradições locais e defensor da memória histórica da cidade. Seu legado é agora perpetuado pelas lentes do cinema, com sensibilidade e profundidade.
O documentário é fruto do trabalho da família Maciel, sob liderança de Murilo Maciel, e conta com a direção de Neto Macedo. O roteiro foi desenvolvido por Thetê Rocha e Rita Maciel, enquanto a pesquisa histórica ficou a cargo dos professores Marta Verônica Vasconcelos Leite e Eduardo Oliveira, ambos do Departamento de História da Universidade Estadual de Montes Claros (Unimontes). A produção executiva é assinada por Fabíola Versiani, da Fulô Comunicação e Cultura.
Para Fabíola, o momento atual é de renovado vigor para a produção cultural brasileira, especialmente no interior do país. “Graças ao retorno do Ministério da Cultura e à retomada de políticas públicas como a Lei Paulo Gustavo, o setor cultural voltou a se fortalecer. Com Cavalhadas, mergulhamos na história da nossa cidade. E é essencial que sejamos nós mesmos a contar a nossa história”, afirmou.
O projeto foi viabilizado com recursos da Lei Paulo Gustavo (LPG), instrumento fundamental para o fomento à cultura nacional, sobretudo em territórios fora dos grandes centros urbanos. A Lei tem possibilitado o resgate de tradições locais, a valorização de identidades regionais e a democratização do acesso à cultura.
A estreia do filme ocorre em um espaço simbólico: o Shopping Ibituruna, importante ponto de encontro da cidade, que abre suas portas gratuitamente para a celebração desta memória coletiva. A exibição é aberta ao público, permitindo que novos e antigos moradores de Montes Claros conheçam — ou relembrem — a grandiosidade das Cavalhadas, um espetáculo que une religiosidade, história e arte.
O documentário também busca lançar luz sobre o papel fundamental da memória nas construções culturais contemporâneas. Ao unir história oral, registros imagéticos e depoimentos, a obra se inscreve como um importante instrumento de educação patrimonial e identidade coletiva, sobretudo para as novas gerações.
A exibição de “Cavalhadas” marca não apenas o resgate de uma tradição, mas também o fortalecimento da cultura montes-clarense como um todo. Ao transformar em linguagem audiovisual uma memória que poderia se perder no tempo, os realizadores contribuem significativamente para a valorização da história local e para a preservação das manifestações populares.
Assim, o retorno das Cavalhadas, mesmo que em formato de documentário, representa mais que uma lembrança: é um convite ao orgulho das raízes, à celebração da arte popular e ao reconhecimento da importância de figuras como Nivaldo Maciel, cujo amor pela cultura ainda reverbera pelas ruas, palcos e corações de Montes Claros.


