Delegação montes-clarense embarca com altas expectativas após meses de preparação intensa, superação pessoal e desafios estruturais enfrentados pelos atletas e treinadores
O significado da palavra “dojô”, em sua origem japonesa, vai muito além de um simples local de treino. É o “lugar do caminho”, o espaço onde o atleta encontra seu eixo físico, emocional e ético — e, para muitos karatecas, o ponto de virada de suas vidas. É dentro desse ambiente de disciplina e autoconhecimento que quatro atletas de Montes Claros se prepararam para um dos maiores desafios do ano: o Campeonato Brasileiro de Karatê 2025, que acontece entre os dias 18 e 23 de novembro, em Fortaleza.
Entre eles está Lorena Antônio, de 32 anos, que se tornou um dos principais nomes do karatê regional ao longo dos últimos três anos. Ela entrou no esporte influenciada pelo filho e pelo marido, José Paulo, e encontrou no dojô um espaço de transformação pessoal em meio à rotina intensa de trabalho, maternidade e responsabilidades familiares. “Nada do que está acontecendo hoje seria possível sem o apoio dele. Meu marido é meu maior incentivador”, afirma.
Da descoberta ao alto rendimento
Desde que começou a treinar, em abril de 2023, Lorena coleciona resultados expressivos. Em 2024, venceu a 4ª etapa do Campeonato Mineiro, em Janaúba, na categoria Master pesado, garantindo vaga para a final estadual em Uberlândia, onde conquistou o vice-campeonato. A performance no Mineiro abriu as portas para o grande objetivo: competir no Brasileiro 2025.
A preparação para a competição foi liderada pelo sensei Antônio Marcos, o Marquinhos, que acompanha Lorena desde o início da jornada. “Foram dois meses de treinamento intensivo, com dois treinos diários”, detalha o treinador. A rotina rigorosa teve como foco aprimorar técnica, força, explosão e resistência — aspectos fundamentais para enfrentar adversários de alto nível no torneio nacional.
Para Lorena, a meta é clara: voltar para Montes Claros com a medalha de ouro.
Os desafios fora do tatame: patrocínio e falta de apoio
Embora o esforço dentro do dojô seja enorme, os obstáculos externos são igualmente grandes. O principal deles, segundo atletas e treinadores, é a falta de incentivo financeiro. Para arcar com custos de viagem, hospedagem e alimentação, Lorena precisou organizar rifas. “Foi difícil. O patrocínio que conseguimos não dava para cobrir tudo. Sem apoio público, tivemos que nos virar”, lamenta.
O sensei Marquinhos, com quase 40 anos de experiência, reforça a dificuldade: “Sou multicampeão, mas o único adversário que nunca venci foi o patrocínio”.
Essa realidade, comum a muitos atletas amadores e semiprofissionais no Brasil, evidencia a importância do apoio estruturado para que talentos locais possam alcançar voos maiores.
Delegação montes-clarense vai completa para a disputa
Além de Lorena, quatro atletas de Montes Claros disputarão medalhas na competição. Entre eles está o experiente karateca e treinador Alex Freitas, que viaja com três alunos:
Júlio César – categoria master
Peterson Nery – categoria master
Gabriel Soares – categoria sênior
Alex Freitas – atleta e sensei, também competindo na categoria master
Alex celebra não apenas a própria participação, mas o amadurecimento técnico da equipe. “As expectativas são muito boas. Estamos treinando forte e os últimos resultados nos credenciam a buscar medalhas. Vamos fazer de tudo para trazer conquistas para Montes Claros.”
Mais que esporte: o karatê como ferramenta de formação social
Profissional dedicado há mais de três décadas, Alex relembra como o karatê entrou em sua vida aos 11 anos, quando viu um amigo com um kimono e decidiu acompanhá-lo até o dojô. “Fiz uma aula experimental e nunca mais parei”, conta, orgulhoso.
Desde então, se tornou dez vezes campeão mineiro e hoje vê no ensino das artes marciais um caminho para transformar vidas. Para ele, o karatê desenvolve habilidades que vão muito além das técnicas de ataque e defesa. “Disciplina, resiliência, autoconfiança e solidariedade — tudo isso o dojô ensina. As amizades que eles constroem aqui seguem para a vida inteira.”
O sensei relata que muitos dos seus alunos criaram laços dentro do dojô que vão além do tatame: “Eles convivem juntos, treinam juntos, se ajudam. É um ambiente rico e formador”.
Caminho aberto para o pódio
Com preparação intensa, entrega total e muita superação, os karatecas de Montes Claros embarcam para Fortaleza prontos para representar o Norte de Minas no palco nacional do karatê.
Apesar dos desafios financeiros, o que move a delegação é o mesmo princípio que rege o dojô: vencer a si mesmo todos os dias.
Se o pódio é o objetivo, a dedicação já é, por si só, uma vitória — e uma inspiração para o esporte montes-clarense.


