Adelaide Valle Pires
Autora
Na minha infância, mulher era um mosaico curioso.
Havia a Magali, que comia o mundo inteiro sem pedir desculpas — e continuava magrinha. Aquilo me intrigava. Havia a Bolota, redonda de cima a baixo, ocupando o próprio espaço sem pedir licença. Havia a Mônica, que não esperava autorização para ser forte: dona da rua, dona da própria voz. E havia a Jeannie, que piscava e mudava o universo de lugar — poderosa, mas apaixonada.
Depois vinham as princesas.
Branca de Neve cuidava, organizava, acolhia sete mundos diferentes numa mesma casa. Cinderela era simplicidade pura: trabalhava, limpava, suportava. Até que se veste para o baile — e o que primeiro encanta é a aparência. Mas, no final, não é o vestido que decide. É o sapato que encaixa.
E sapato não mede maquiagem.
Sapato mede pé.
Não mede fantasia.
Mede forma.
Às vezes quase ouço aquela canção dizendo:
“Eu nasci assim, eu cresci assim…”
E fico pensando se isso é resistência à mudança — ou fidelidade à própria essência.
Entre a que come, a que ocupa espaço, a que lidera, a que ama, a que cuida, a que brilha no baile e a que continua simples quando a música termina, talvez a mulher nunca tenha sido uma coisa só.
Talvez sempre tenha sido composição.
Porque, no fim, pouco importa se você é Bolota ou Magali, Cinderela ou Mônica.
O que importa é:
a sua essência continua cabendo no seu próprio sapato?


