Adelaide Valle Pires
Psicóloga
Eu gosto dessas coisas que começam de um jeito e acabam levando a gente para outro lugar. Foi uma palavra que me levou a uma série. E a série me levou a pensar em poder.
A palavra era job. Aprendi, durante uma viagem, um novo uso para ela, relacionado a um serviço em que a sedução também fazia parte do jogo. Quando encontrei The Apartment Job, fiquei curiosa e fui assistir.
E aí aconteceu o que mais gosto quando aprendo alguma coisa: uma coisa me levou a outra. O job da série envolve golpe, estratégia, conquista e vínculos. Mas, olhando além da trama, comecei a perceber uma sequência: sedução, vínculo, pertencimento, confiança, influência… poder.
E foi aí que deixei de perguntar quem tem o poder. Passei a perguntar: de onde ele emana? Do cargo? Do dinheiro? Da informação? Da confiança? Da capacidade de seduzir?
Talvez seja esse o poder da visão: não se contentar com o que está diante dos olhos. Um mesmo fato pode ter um motivo e muitos objetivos. Uma palavra pode ser apenas uma palavra ou pode ser o começo de uma boa história.
E foi justamente uma palavra da série que me levou a outra reflexão.
Na série, uma personagem acaba de assumir a presidência do condomínio. Ao caminhar pelas ruas, agora com o título de presidente, ela comenta com o presidente do conselho: “É tão bom andar pelo condomínio como presidente. Estou me sentindo uma outra mulher.”
Uma frase simples, mas que me fez parar. Porque aquela palavra — presidente — parecia ter mudado a maneira como ela se via.
E imediatamente me lembrei de Dona Geralda.
Há muitos anos, assisti a uma apresentação do GIE – Grupo de Intercâmbio Empresarial, em que ela, então presidente da ASMARE, em Belo Horizonte, se apresentou como “animadora geral”.
Não era apenas uma questão de título. Para ela, a palavra presidente carregava uma ideia de distância. Já animadora geral era uma forma de se sentir mais confortável, mais próxima das pessoas que representava.
Duas mulheres, a mesma função, duas palavras e dois significados. E fiquei pensando no poder da comunicação.
Às vezes, não é o cargo que muda a pessoa. É a palavra que ela escolhe para ocupar esse lugar. Talvez esteja aí o verdadeiro poder de uma palavra: não apenas dizer quem somos, mas também revelar como queremos estar com o outro.
E, quando pensei que já tinha desvendado uma parte desse poder, a série ainda me levou a outro lugar.
Na história, um dos personagens decide fazer jejum intermitente. A conversa vai se desenrolando e, de repente, surge uma expressão que me fez rir: “família intermitente”.
E fiquei pensando que, afinal, talvez a vida seja mesmo feita de alguns verbos essenciais. Há décadas, quando conheci Os 7 Hábitos das Pessoas Altamente Eficazes, uma das ideias que ficou comigo foi a tríade: SER, TER e FAZER.
E me lembrei daquela velha frase: “Todo homem precisa ter um filho, escrever um livro e plantar uma árvore.”
Hoje eu olharia para ela de outro jeito. Ter um filho pode representar o desejo de pertencer, de construir uma família — tradicional, escolhida ou, por que não, intermitente.
Escrever um livro pode ser uma forma de SER: colocar no mundo aquilo que pensamos, acreditamos e somos. Ser o próprio CEO — Construtor, Empreiteiro de si mesmo.
E plantar uma árvore é FAZER: deixar alguma coisa depois de nós. Uma ideia, uma obra, um cuidado, uma contribuição, uma palavra, um trabalho.
Talvez o mais importante não esteja nos adjetivos que recebemos, mas nos verbos que escolhemos viver. Porque filho, livro e árvore são substantivos, mas pertencer, ser e contribuir são ações.
E a vida, no fim das contas, acontece nos verbos.


