Paula Pereira
Jornalista | Programadora Visual | Analista de Marketing
Em uma cidade que cresce, se reinventa e aprende diariamente a conviver com o novo, alguns empreendimentos surgem não pela pressa de aparecer, mas pela maturidade de quem já viveu o suficiente para entender que o sucesso não se apressa. O restaurante Alecrim do Campo, recém-inaugurado em Montes Claros, nasce exatamente assim: sem alarde, sem atalhos e com a convicção de que a base de qualquer negócio duradouro ainda é gente cuidando de gente.
À frente do projeto está Valdenicio Nunes Severino, nome conhecido na gastronomia local, mas que prefere se definir não como empresário, e sim como alguém que gosta de atender. Com quase 28 anos de atuação no ramo, Valdenicio construiu sua trajetória dentro de cozinhas, salões e bastidores, aprendendo mais com o cotidiano do que com qualquer fórmula pronta. “Eu continuo aprendendo todos os dias”, afirma, sem medo de admitir que experiência não significa ponto final.
A história com restaurantes começou cedo. O primeiro emprego já foi nesse universo e, desde então, Valdenicio nunca mais saiu da área. Em 2005, abriu a Cantina Nacional, na Rua Padre Teixeira. Trabalhou no restaurante Sabor & Companhia, hoje conhecido como Casa do Sabor, no Distrito Industrial, empreendimento que comanda desde 2018, pouco antes do período mais desafiador da pandemia. Agora, com o Alecrim do Campo, ele amplia sua presença no setor, sem perder a essência que sempre norteou seu trabalho.
Instalado em uma casa antiga, o novo restaurante carrega mais do que paredes e memórias arquitetônicas. O imóvel, que já foi residência de um ex-prefeito de Montes Claros, teve sua estrutura preservada ao máximo, respeitando a história e incorporando funcionalidade. O projeto arquitetônico, assinado por Luciano Vilas-Boas, foi pensado em conjunto com Valdenicio e sua esposa, Andréia de Sousa, com um objetivo claro: facilitar o trabalho da equipe e tornar a experiência do cliente leve, prática e acolhedora.
Nada ali é por acaso. A circulação dos atendentes, a integração com a cozinha, a disposição das mesas e a iluminação clara criam um ambiente arejado, onde o cliente se sente confortável e o funcionário consegue trabalhar com menos tensão. O Alecrim do Campo nasce com vocação para ser casa — no sentido mais simples e verdadeiro da palavra.

A proposta do cardápio segue a mesma lógica. O foco é a comida do dia a dia, bem feita, honesta e acessível. Prato feito a R$ 25, comida por quilo a R$ 65, marmitex grande a R$ 25 e pequeno a R$ 18 refletem um compromisso com o público trabalhador, aquele que precisa de qualidade sem excessos. Não é o mais barato nem o mais caro da cidade — é, como define o próprio Valdenicio, um preço justo.
Mas, para ele, o valor do restaurante não está apenas nos números. Está no gesto. No cumprimento ao entrar, na atenção durante a refeição, no cuidado com o prato servido. “O que me dá prazer é ver o cliente sair satisfeito. O retorno financeiro vem depois, como consequência”, resume. Em um mercado cada vez mais automatizado, essa visão quase artesanal se torna um diferencial.

A mesma filosofia orienta a relação com a equipe. Em um setor conhecido pela pressão constante, Valdenicio aposta no diálogo, na compreensão e no aprendizado coletivo. Há funcionários com quase 20 anos de casa, pessoas que começaram em funções simples e hoje dominam diferentes etapas do processo. Errar, ali, não é sinônimo de punição imediata, mas de correção e crescimento. “A gente ajusta e segue”, diz.
No Alecrim do Campo, ninguém está limitado a uma única função. Cozinheiras que atendem mesas, profissionais que aprendem mais de uma etapa do serviço e uma equipe preparada para se ajudar fazem parte da rotina. Não por exploração, mas por formação. Entender o processo como um todo fortalece o trabalho e cria pertencimento.
Ao lado de Andréia, sua companheira desde os 15 anos e hoje sua sócia no dia a dia, Valdenicio divide a rotina entre o novo restaurante e a Casa do Sabor, no Distrito Industrial. Pai de dois filhos — uma adolescente de 17 anos e um menino de 11 —, ele carrega para o negócio valores que vêm de casa: respeito, dignidade e empatia.
Mesmo com a experiência em grandes eventos, como festas tradicionais em clubes da cidade, atendendo públicos que chegam a mil pessoas, Valdenicio faz questão de reforçar que não existe sucesso imediato. Existe processo. Existe constância. Existe humildade para aprender, mesmo depois de quase três décadas de estrada.
Para quem está começando no ramo — ou em qualquer área —, a mensagem é direta: não pule etapas. “Muita gente quer chegar no topo sem passar pelo caminho. E quando chega, não sabe lidar com o que encontra.” No Alecrim do Campo, essa lógica se traduz em cada detalhe, do prato servido ao modo de receber.
Em um cenário onde muitos negócios nascem pensando apenas em crescimento rápido, o Alecrim do Campo surge como contraponto: um restaurante que aposta no tempo, na relação humana e na construção diária. Porque, no fim das contas, mais do que alimentar, um bom restaurante precisa acolher — e isso, definitivamente, não se aprende da noite para o dia.


