Com apoio do poder público, assistência técnica e ações de fortalecimento da agricultura familiar, feiras se espalham pelos bairros e viram espaço de comércio, convivência e identidade norte-mineira
É cedo para quem vem da roça. É hora de montar a banca para quem vive da feira. E, para quem compra, é o momento de escolher entre verduras, frutas, quitandas, queijos, doces, temperos, artesanato e uma infinidade de produtos que carregam um pouco da história de quem produz. Em Montes Claros, as feiras livres deixaram de ser apenas pontos de abastecimento e passaram a ocupar um espaço importante na economia dos bairros e na relação entre campo e cidade.
Um levantamento publicado pelo jornal O Norte em março de 2026 mostrou que o comércio direto vem ganhando força em diferentes regiões da cidade. A Feira da Carolina, no Jardim São Luiz, reúne cerca de mil pessoas por semana desde que começou a funcionar, em 2023. A Feira do Independência, criada em 2025, já contava com cerca de 100 feirantes cadastrados e movimentava, segundo a organização, entre R$ 40 mil e R$ 70 mil por semana.
O dinheiro que circula nesses espaços não fica apenas na banca. Ele volta para a produção, compra matéria-prima, paga transporte, ajuda na manutenção das propriedades rurais e movimenta o comércio dos próprios bairros.
Para Raimunda Moreira, que produz chips de batata e participa de feiras há cinco anos, o impacto foi direto no crescimento do negócio. Ela contou que chegou a viver uma época em que vender um saco de batata por semana já era considerado muito. Hoje, trabalha com cerca de 20 sacos de batata por semana, além de mandioca, abóbora, banana, inhame e batata-doce.
“Abriu portas. Se não fossem as feiras, a gente não teria crescido do jeito que cresceu”, afirmou Raimunda em entrevista publicada em março deste ano.
Venda direta reduz distância entre quem produz e quem compra
A economista Vânia Vilas Boas, coordenadora do Índice de Preços ao Consumidor (IPC) da Unimontes, também destacou o papel econômico das feiras. Segundo ela, esses espaços podem reduzir a dependência de intermediários e oferecer maior variedade de preços ao consumidor.
“Principalmente os produtos alimentares comprometem grande parte do orçamento das famílias”, afirmou. Na avaliação da economista, a venda direta permite ao produtor comercializar sua produção sem tantos intermediários, enquanto o consumidor encontra alternativas para reduzir os gastos.
Esse contato direto também aparece em pesquisas acadêmicas realizadas em Montes Claros. Estudo publicado pela Revista Alteridade, da Unimontes, analisou a Feira do São José e entrevistou 50 consumidores e cinco feirantes. A pesquisa identificou que saúde e qualidade dos alimentos estavam entre as principais razões para a escolha dos consumidores, além do interesse em apoiar a agricultura familiar.
Outro trabalho acadêmico, publicado em 2025, recuperou a história da Feira do São José a partir de entrevistas realizadas com participantes do processo de criação. O agricultor e articulador Geraldo Élcio contou que a iniciativa surgiu depois de observar produtores do Pentáurea perderem parte da produção por falta de mercado.
“Quando os sacolões não têm demanda, eles não buscam. Quando eles querem pagar, o preço é muito baixo, não compensa”, relatou um agricultor a Geraldo, episódio que ajudou a inspirar a criação da feira.
Geraldo também relatou que a organização envolveu produtores, associação, UFMG, Secretaria Municipal de Agricultura, Emater e IMA. Segundo o estudo, as primeiras barracas foram viabilizadas com participação da Emater e de emendas parlamentares.
Emater atua na produção e na comercialização
A assistência técnica é uma das peças que ajudam a transformar produção rural em oportunidade de mercado. Em Minas Gerais, a Emater-MG informou em abril de 2026 que apoia ou coordena feiras da agricultura familiar em quase 700 municípios, envolvendo aproximadamente 18,9 mil famílias de agricultores. A atuação inclui assistência técnica, organização dos espaços e ações de incentivo à comercialização.
Em Montes Claros, a relação com a Emater também tem histórico na organização das feiras. Em 2025, a Prefeitura criou o Programa Municipal de Assistência Técnica, Extensão e Desenvolvimento Rural Ministro Alysson Paolinelli, destinado a pequenos e médios produtores, com previsão de apoio gratuito à produção e à comercialização.
A Prefeitura também mantém responsabilidades diretas sobre as feiras. Pela legislação municipal, cabe ao Executivo autorizar e cadastrar feirantes, definir locais e horários, acompanhar a ocupação dos espaços e atuar na fiscalização sanitária e nas ações de orientação sobre segurança dos alimentos. A legislação estabelece ainda que a atividade pode ser exercida por produtores rurais, agricultores familiares, entidades associativas e artesãos devidamente cadastrados.
Em 2026, o Município também promoveu ações de capacitação e orientação sanitária. Em agosto, agricultores familiares e feirantes participaram do encontro “Alimento é Saúde”, voltado a boas práticas de produção, manipulação, armazenamento, comercialização e regularização dos alimentos.
Codevasf fortalece a base produtiva
Na outra ponta da cadeia está a produção rural. É justamente nesse ponto que aparece a atuação da Companhia de Desenvolvimento dos Vales do São Francisco e do Parnaíba (Codevasf), cuja 1ª Superintendência Regional tem sede em Montes Claros.
Em 2025, segundo balanço divulgado pela própria companhia em 2026, mais de R$ 155 milhões foram aplicados em ações de desenvolvimento no Norte de Minas e no Vale do Jequitinhonha. Na estruturação da produção agrícola, foram destinados mais de R$ 25 milhões para beneficiar aproximadamente 315 associações de pequenos produtores com tratores, implementos e outros equipamentos. Os investimentos em inclusão produtiva e economia criativa superaram R$ 19 milhões e incluíram, regionalmente, ações de estruturação de feiras livres.
A companhia também informou que, nos últimos dez anos, distribuiu 917 tratores e implementos agrícolas em Minas Gerais, em investimentos estimados em R$ 85 milhões. Entre os beneficiados está o produtor Cláudio Aparecido Fonseca, da comunidade de Morro Vermelho, em Montes Claros. Segundo ele, os cursos oferecidos pela Codevasf sobre operação de equipamentos e uso de insumos foram importantes para melhorar a atividade rural.
O apoio, portanto, começa antes da banca: passa pela produção, pela mecanização, pela assistência técnica e pelo acesso a mercados. A feira é uma das pontas desse circuito.
Mais que comércio
A força das feiras, entretanto, não está apenas no dinheiro. Elas também funcionam como espaços de convivência.
Na pesquisa etnográfica sobre a Feira do São José, a feirante Dona Marieta resumiu essa dimensão ao falar sobre sua experiência depois de começar a vender os próprios produtos: “O contato com diversas pessoas me deixa animada, eu vivo isso aqui.”
É uma frase que ajuda a explicar por que a feira sobrevive mesmo em uma cidade com supermercados, sacolões, atacadistas e comércio digital. Ali, o consumidor não encontra somente uma mercadoria. Encontra quem plantou, quem colheu, quem preparou a quitanda e quem conhece a história daquele produto.
Um estudo publicado pela Unimontes em 2026 concluiu que as feiras livres acompanham a expansão urbana de Montes Claros e contribuem para a descentralização do comércio, criando novas centralidades nos bairros.
É por isso que a feira continua sendo uma espécie de ponte entre dois mundos que nunca estiveram realmente separados: o campo que produz e a cidade que consome.
Em Montes Claros, essa ponte ganhou novos formatos. Há feira de domingo pela manhã, feira noturna, feira de agricultura familiar, feira com gastronomia, artesanato e produtos do cerrado. O que permanece, porém, é a velha lógica sertaneja: quem planta precisa de quem compre; quem compra quer saber de onde veio aquilo que vai levar para casa.
E, entre a roça e a mesa, a feira continua fazendo esse encontro acontecer.


