Paula Pereira
Jornalista/ Programadora visual/ Analista de marketing
A esta altura do campeonato — ou da novela —, quem nunca ouviu um dono de restaurante suspirando fundo, um mecânico coçando a cabeça ou uma cabeleireira rezando baixinho: “cadê o povo pra trabalhar?” Que sumiram, sumiram. Mas foram pra onde? A verdade é que parece que o Brasil anda sofrendo de uma espécie de “apagão de gente”, uma estiagem de mão de obra na prestação de serviços — justo ela, que é quem mais pega no pesado e sustenta o armazém do cotidiano funcionando.
E olhe que não é por falta de desempregado, não. O que se vê é um paradoxo do tamanho de um trem de ferro: tem gente sem trabalho e trabalho sem gente. Um desemparelhamento digno de cartomante se coçar a cabeça. Mas vamos por partes — como diria açougueiro com pouca clientela.
O problema não é só que o povo não quer trabalhar. É que o trabalho, muitas vezes, não quer muito bem o povo também. Os salários são minguados, os horários são quebrados, o patrão exige agilidade, proatividade, inglês básico e disposição pra carregar caixa no sol do meio-dia — e tudo isso com um sorriso no rosto. Não é que o jovem de hoje seja fresco: é que o modelo de ontem ficou rançoso.
Some-se a isso o fato de que, durante anos, disseram pro menino da roça e pra menina do subúrbio que o certo era virar “doutor”. Aí, encheu-se o país de bacharéis em coisa nenhuma e esvaziou-se o time dos encanadores, eletricistas, garçons, motoristas, técnicos de geladeira, soldadores e auxiliares de tudo quanto é serviço. Hoje tem doutor desempregado com diploma emoldurado e torneira pingando porque não se acha um bom encanador.
E cá entre nós, o serviço, quando é prestado com gosto, é uma arte. Quem já viu um garçom experiente equilibrando três pratos e ainda chamando o cliente de “meu rei” sabe do que estamos falando. Mas essa arte precisa ser reconhecida, valorizada, paga — e não tratada como último degrau da escada social.
Outro danado do problema é a digitalização da vida: o trabalhador cansou de bater ponto e foi bater corrida em aplicativo. Lá ele manda em si mesmo, ainda que ganhe menos e trabalhe mais. O “patrão”, agora, é o algoritmo — frio, invisível e que não dá nem cesta de Natal. Mas tem liberdade. E liberdade, meu amigo, é coisa que não se mede em contracheque.
O certo é que o país precisa repensar a trilha. Revalorizar o técnico, o prático, o que trabalha com a mão, com o olho, com o corpo. Ensinar desde cedo que prestação de serviço é ofício nobre, e que trabalhar com dignidade é mais bonito que muito cargo de terno e pose. E tem que vir política pública, sim: incentivo, formação, carteira assinada, plano de carreira e cafezinho quente no intervalo.
Porque o Brasil, com todo respeito, não anda sem os que trabalham de fato. E, se o povo continua sumido, corremos o risco de termos um país com muito projeto, muita reunião e pouca execução — um trem que apita bonito, mas nunca sai da estação.
E no mais, que alguém descubra onde foi parar esse povo todo. Porque vaga tem. O que falta é quem queira — e possa — ocupá-la.


