Crônica: “Alugo-me para estar” - Rede Gazeta de Comunicação

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Crônica: “Alugo-me para estar”

Adelaide Valle Pires

Psicóloga por formação, arqueóloga de coração

Ontem, durante a live de lançamento de Arena da Comunicação, meu editor repetia uma expressão que parecia atravessar a noite inteira: “comunicação como presença.”

Eu ouvi e guardei, porque é exatamente isso que tenho aprendido — comunicar é mais sobre estar do que dizer.

Hoje, como se o universo tivesse escutado, recebo um texto chamado “Alugo-me para não fazer nada.”

Conta a história de um homem de Tóquio, mestre em física, comum e calado, que um dia se cansou de trabalhos que não o preenchiam. Por brincadeira, publicou um tweet:

 “Alugo-me para não fazer nada.

Posso estar contigo, ouvir-te, acompanhar-te.

Não cozinho, não limpo, não dou conselhos.

Apenas existo contigo.

Preço: transporte e comida.”

No dia seguinte, mais de quinhentas mensagens.

E desde então, ele apenas faz o que quase ninguém aprendeu a fazer: estar.

Sem resolver, sem salvar, sem mudar — só estar junto, testemunhar silenciosamente as pequenas batalhas invisíveis da vida.

Quando lhe perguntaram se isso o fazia sentir sozinho, respondeu:

 “Não. Eu também precisava de companhia.

Mas sem máscaras, sem expectativas.

Apenas dois seres humanos compartilhando o mesmo tempo.”

Li isso e pensei: esse poderia ter sido o meu discurso.

Porque, no fundo, foi exatamente o que eu disse — com outras palavras, com a minha história.

Falei do método que eu mesma criei, o Cia, nascido da solidão dos métodos que segui.

Antes, eu era top model: sozinha no topo e sentindo o vazio do efêmero.

Agora, sou companhia: alguém que comunica por estar, por partilhar, por acreditar que o encontro é o verdadeiro palco da expressão.

Eu amo minha própria companhia — mas preciso da do outro.

Porque é no espelho do outro que o meu ser ganha contorno.

Na live, usei uma metáfora para falar disso: o iceberg.

A fala, o gesto, o comportamento — são só a pontinha visível.

A verdadeira comunicação mora lá embaixo, onde vivem os valores, os sentidos, as intenções.

É lá que o ser humano interpreta e é interpretado.

E foi lá, nesse fundo gelado e vivo, que aprendi a mergulhar.

Venho de uma família cheia de afetos — e de um casamento entre razão e emoção.

Talvez por isso eu tenha escolhido a comunicação não como arma, mas como abraço.

Não para vencer, mas para compreender.

Não para ensinar, mas para acompanhar.

Como esse homem de Tóquio, que “não faz nada” e, justamente por isso, faz tudo:

está presente.

Reflexão CHARME

C — Captura

 O que nessa história te capturou?

Foi o silêncio?

A presença?

Ou a simplicidade de alguém que decidiu apenas estar?

Que parte dessa história te escolheu, antes mesmo que você a escolhesse?

H — Hábito

 Que hábitos te afastam da tua própria presença?

Quantas vezes você preenche o tempo para não sentir o vazio?

O que, no teu cotidiano, te impede de simplesmente “não fazer nada” — e ainda assim estar inteiro?

A — Ação

 Quando foi a última vez que você agiu movido por sentido, e não por obrigação?

Você tem se permitido agir com delicadeza, ou apenas reagir?

Qual seria a ação mais simples que hoje te reconectaria ao que é essencial?

R — Reflexão

 O que há por baixo do teu iceberg?

O que move teus gestos, tuas palavras, tuas escolhas?

Quais valores sustentam a tua forma de se comunicar?

M — Mudança

 Que mudança silenciosa está pedindo passagem em você?

Ela precisa de um grito — ou de um olhar atento?

O que em você quer se transformar, mas ainda espera que alguém simplesmente esteja ao teu lado para nascer?

E — Expansão

 O que se expande quando você aprende a estar?

Como a tua presença pode ser semente de paz, e não de ruído?

Que espaço dentro de você se abre quando você deixa de falar e começa a ouvir com o coração?